o castigo que Cupido me impõe…

“Ora vede! Será possível? Eu, apaixonado! Eu, que fui sempre o açoite de Cupido, verdadeiro carrasco dos suspiros amorosos, o crítico, ou melhor: guarda-noturna sempre de vigília, severo preceptor desse menino, mortal cheio de empáfia como poucos! Esse chorão de cueiros, rabugento, menino-velho, míope, não-gigante, Dom Cupido, regente dos sonetos amorosos, senhor de mãos vazias, ungido soberano dos suspiros e gemidos, de todos os madraços e descontentes, príncipe temido das saias, rei de todas as braguilhas, único imperador, grande caudilho dos meirinhos vagantes. Oh, meu pobre coração! Ficar eu como seu cabo! Terei de usar-lhe as cores como simples saltimbanco? Eu, a amar? Fazendo a corte? Procurando uma esposa? E logo qual? Verdadeiro relógio da Alemanha, que em conserto está sempre e desmanchado e que horas não dá certas, salvo quando vigiado, para andar sempre no passo. E o que é pior: tornar-me, assim, perjuro! E mais, ainda: amar a pior das três! aquela bicha branca, de sobrolhos de veludo, que, em vez de olhos, ostenta duas bolas de piche, sim, que, certo, há de realizar o feito, embora tenha como eunuco o próprio Argo de vigia. A suspirar por ela! Estar de guarda! Rezar por ela! Vamos! o castigo que Cupido me impõe, por eu ter feito pouco caso de seu onipotente pequenino poder. Mas, que tem isso? Hei de amar, escrever, fazer a corte, gemer e suspirar. Alguém teria de escolher minha dama; serei eu; para Joana há de haver algum sandeu.

William Shakespeare in Love’s Labour’s Lost

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s