meu presente do mar…

“Comecei a escrever estas páginas para mim mesma. Queria elaborar meu próprio modo de viver, meu equilibrio pessoal na vida, no trabalho e em meus relacionamentos. Como penso melhor com um lápis na mão, comecei a escrever naturalmente. À medida que os pensamentos ficavam claros no papel, comecei a perceber que minha experiência era muito diferente da experiência de outras pessoas (será que todos temos essa mesma ilusão?). Em alguns aspectos, sentia-me mais livre do que a maioria das pessoas; em outros, sentia-me menos livre.
Além disso, pensei, nem todas as mulheres estão buscando um novo estilo de vida ou um canto contemplativo só para elas. À primeira vista, parecem lidar com seus problemas muito bem, muito melhor do que eu. Com inveja e admiração, observava a perfeição de porcelana com que transcorriam seus dias calmos e bem programados. Talvez não tivessem problemas ou já tivessem, há muito, encontrado as soluções. Então decidi que estas discussões só teriam valor e interesse para mim.
Mas, à medida que escrevia, conversava com outras mulheres, mais novas e mais velhas, com vidas e experiências diferentes – algumas independentes economicamente, outras buscando uma profissão, outras trabalhando com afinco como mães e donas de casa e ainda outras que se sentiam confortáveis com seu estilo de vida. Foi então que concluí que essas preocupações não eram só minhas. Descobri que muitos homens e mulheres, em diversas situações e sob formas diferentes, estavam envolvidos com as mesmas questões que eu, ansiosos para discutir, debater e elaborar possíveis respostas. Até mesmo aquelas cujas vidas pareciam transcorrer imperturbáveis sob rostos sorridentes, estavam também tentando, como eu, desenvolver um novo ritmo de vida – um ritmo entremeado de momentos mais criativos, mais ajustados às suas necessidades individuais, com relacionamentos novos e mais intensos com eles mesmos e com os outros.
E, assim, pouco a pouco, estes capítulos tornaram-se muito mais do que minha história pessoal, inspirados que foram em diálogos, discussões e revelações de homens e mulheres de vários grupos. Decidi então devolvê-los às pessoas que compartilharam muitos destes pensamentos comigo. E, aqui, com sentimentos de gratidão e companherismo por aqueles que trabalharam na mesma direção, devolvo meu presente do mar.”

Anne Morrow Lindbergh in “Presente do Mar”

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