fábula antiga…

fábula antiga

no principio do mundo o Amor não era cego;
via mesmo através da escuridão cerrada
com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.

mas um dia, brincando, a Demência, irritada,
num ímpeto de fúria, os seus olhos vazou;
foi a Demência logo às feras condemnada.

mas Júpiter, sorrindo, a pena commutou.
a Demência ficou apenas obrigada
a acompanhar o Amor, visto que ella o cegou,

como um pobre que leva um cego pela estrada.
unidos, desde então, por invisiveis laços,
quando o Amor emprehende a mais simples jornada,
vae a Demência adeante a conduzir-lhe os passos.

(António Feijó)

o amor e o tempo…

nascido em ponte de lima (portugal), em 1859, antónio feijó foi um diplomata português, formado em direito por combra, que exerceu suas atividades diplomáticas no brasil, na suécia, na noruega e na dinamarca. sua vida nos países nórdicos certamente influenciou a delicadeza da sua poesia. de um de seus livros – sol de inverno (1922), aqui está

o amor e o tempo

pela montanha alcantilada,
todos quatro em alegre companhia,
o Amor, o Tempo, a minha Amada
e eu subiamos um dia.

da minha Amada no gentil semblante
já se viam indicios de cansaço;
o Amor passava-nos adeante
e o Tempo accelerava o passo.

–«Amor! Amor! mais de vagar!
não corras tanto assim, que tão ligeira
não pode com certeza caminhar
a minha doce companheira!»

súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
abrem as asas trémulas ao vento…
–«porque voaes assim tão apressados?
onde vos dirigis?»–nesse momento,

volta-se o Amor e diz com azedume:
–«tende paciência, amigos meus!
eu sempre tive este costume
de fugir com o Tempo… adeus! adeus!»

(António Feijó)