“é o que se quer aqui, escrevível”

RESENHA

RARO MAR*
ARMANDO FREITAS FILHO

Os poemas que abrem Raro mar versam sobre a fatura literária: “Outra receita” fala do “resultado final da oficina” como um conserto de palavras, em que a carpintaria poética não tem hora para terminar. As influências do modernismo, na precisão construtiva e no lirismo, se fazem sentir em alusões a Mário de Andrade, Carlos Drummond, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

Ao ideário modernista, Armando Freitas Filho acrescenta o experimentalismo e o à-vontade estético aprendido no convívio com a poesia marginal e os poetas da nova geração.

A transformação social e urbana do Rio de Janeiro também está presente no livro. O processo histórico fez com que o mar carioca se tornasse “raro”. O Rio se espraiou, e o mar que conserva o esplendor da cidade convive hoje com a multidão, o consumo, as armas, o tráfico, a automação.

A série “Numeral” enfeixa poemas escritos ao longo de mais de dois anos, que se encadeiam como um diário poético. Neles, a passagem do tempo dá forma aos temas mais caros ao autor: a sensualidade, o corpo como enigma, a morte e a correnteza da vida. Se o alcance dos versos em tempos difíceis se aproxima do devaneio, a poesia de Armando Freitas Filho impõe-se com a força do sonho.

* O livro Raro Mar, de Armando Freitas Filho, é um dos dez finalistas do 49º Prêmio Jabuti 2007, na categoria melhor livro de poesia.

Outra receita
Armando Freitas Filho

Da linguagem, o que flutua
ao contrário do feijão à João
é o que se quer aqui, escrevível:
o conserto das palavras, não só
o resultado final da oficina
mas o ruído discreto e breve
o rumor de rosca, a relojoaria
do dia e do sentido se fazendo
sem hora para acabar, interminável
sem acalmar a mesa, sem o clic
final, onde se admite tudo –
o eco, o feno, a palha, o leve –
até para efeito de contraste
para fazer do peso – pesadelo.
E em vez de pedra quebra-dente
para manter a atenção de quem lê
como isca, como risco, a ameaça
do que está no ar, iminente.

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