de manhã quando acordei tinha esquecido todos os poemas…

O poeta é um sonhador
Carlos Vogt

Ontem
mais precisamente nesta madrugada
tive um sonho como um fotograma
vi um poema do começo ao meio e fim
completar-se diante de meus olhos adormecidos e
[atentos
instantâneo de simultaneidades
era um poema acabado inteiro fantástico
montagem de inversões conceituais inusitadas
armando o belo paradoxo que o fechava
tão inesperado quanto simples e correta a sua linguagem

sonhei depois que me acordara
do sonho do poema
quase nada retinha na memória
que sonhada
fugia de esquecer-se estranha num cubículo
mesmo assim tive a vaga impressão de que no texto
[corria
a mobilidade dos corpos na terra
o giro da terra no tempo
o tempo fluindo estático no poema
tudo pouco claro e sugerido muito mais mostrado do
[que dito
não sei por que sinal ali implícito
lembrou-me o nome Galileu para o seu título

tinha entretanto perdido o achado

abatido pela fuga do poema sonhei que adormeci
[novamente
e novamente sonhei com o poema
nele havia agora uns motivos de juventude e outros
[encantamentos sociais
que não estavam – segundo o sonho – no primeiro
dessa vez fui mais profissional nas diligências da ilusão
sonhei que ao despertar fui procurar um lápis e umas
[pílulas
na falta de papel contentei-me com umas etiquetas de
[supermercado
picotadas e pequenas como selos escuras e sem brancos
aí anotei o poema que não me escapou nem sequer pelas
[vírgulas

adormeci feliz tendo ao lado da cama sobre o
[criado-mudo
o troféu de meus combates com o sono com as formas
[com a noite com os temas
lá estava enfim domesticado e vivo o poema dos meus
[sonhos

de manhã quando acordei tinha esquecido todos os
[poemas