“Embora negros, os teus olhos me suscitam”

AS PROMESSAS DE UM ROSTO
Baudelaire

Eu te amo as sobrancelhas que ao curvar-se imitam
Da treva os véus e os movimentos;
Embora negros, os teus olhos me suscitam
Nem sempre turvos pensamentos.

Teus olhos, cujo tom às cores se combina
De tua ondeante crina elástica,
Teus olhos lânguidos me dizem em surdina:
“Se tens, cultor da musa plástica,

Confiança nessa fé que em ti tanto exaltamos,
E nos prazeres que anuncias,
Poderás comprovar de fato o que afirmamos
Do umbigo às nádegas macias.

Verás nos bicos destes seios que desnudo
Dois brônzeos medalhões febris,
E sob um ventre cuja tez lembra o veludo,
Ou do bistre o negro matiz,

Um soberbo tostão que é o gêmeo, na verdade,
Dessa outra juba que fulgura,
Suave e frisada, e que te iguala em densidade,
Noite sem astros, noite escura!”

la mort des amants…

nous aurons des lits pleins d’odeurs légères,
des divans profonds comme des tombeaux,
et d’étranges fleurs sur des étagères,
écloses pour nous sous des cieux plus beaux.

usant à l’envi leurs chaleurs dernières,
nos deux cœurs seront deux vastes flambeaux,
qui réfléchiront leurs doubles lumières
dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

un soir fait de rose et de bleu mystique,
nous échangerons un éclair unique,
comme un long sanglot, tout chargé d’adieux ;

et plus tard un Ange, entr’ouvrant les portes,
viendra ranimer, fidèle et joyeux,
les miroirs ternis et les flammes mortes.

(Charles Baudelaire)

“Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça”

AO LEITOR

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
– Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Charles Pierre Baudelaire

“Com vinho, poesia ou virtude, a escolher”

EMBRIAGUEM-SE

 

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

 

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

 

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

 

Charles Baudelaire

“I miei occhi, questi larghi occhi dalle luci eterne”

La Bellezza

Charles Baudelaire

Sono bella, o mortali, come un sogno di pietra e il mio seno,
cui volta a volta ciascuno s’è scontrato,
è fatto per ispirare al poeta un amore eterno e muto come la materia.

Troneggio nell’azzurro quale Sfinge incompresa,
unisco un cuore di neve alla bianchezza dei cigni,
odio il movimento che scompone le linee e mai piango, mai rido.

I poeti, di fronte alle mie grandi pose,
che ho l’aria di imitare dai più fieri monumenti,
consumeranno i giorni in studi severi, perché,

onde affascinare quei docili amanti,
ho degli specchi puri che fanno più bella ogni cosa:
I miei occhi, questi larghi occhi dalle luci eterne.