Estou felizmente mais doida

Cadê eu? perguntava-me. E quem respondia era uma estranha que me dizia fria e
categoricamente: tu és tu mesma.
Sou hábil em formar teoria.
Faço perguntas a uma audiência invisível e esta me anima com as respostas a prosseguir.
Depois que eu recuperei meu contato comigo é que me fecundei e o resultado foi o nascimento
alvoroçado de um prazer todo diferente do que chamam prazer.

(…)

Estou felizmente mais doida.
Será que a polícia me pega? Me pega porque existo? paga-se com prisão a vida: palavra linda,
orgânica, sestrosa, pleonástica, espérmica, duróbila.
Ela tem que levar uma vida pacata, bem acomodada, bem burguesa. Senão a loucura vem. É
perigoso.
É preciso calar a boca e nada contar sobre o que se sabe e o que se sabe é tanto, e é tão glorioso.
Sei criar silêncio.
Para tudo: criei o silêncio.
Sinto em mim uma violência subterrânea,
violência que só vem à tona no ato de escrever.
Depende de mim o seu destino?
Ver é a pura loucura do corpo.
Vida imaginária é viver do passado ou para o futuro.

(…)

Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu segredo?

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meditação leve e terna sobre o nada…

Meditação leve e terna sobre o nada. Escrevo quase que totalmente liberto de meu corpo. É como se este estivesse em levitação. Meu espírito está vazio por causa de tanta felicidade. Estou tendo uma liber­dade íntima que só se compara a um cavalgar sem destino pelos campos afora. Estou livre de destino. Será o meu destino alcançar a liberdade? não há uma ruga no meu espírito que se espraia em leves espumas. Não estou mais acossado. Isto é a graça.
Estou ouvindo música. Debussy usa as espumas do mar morrendo na areia, refluindo e fluindo. Bach é matemático. Mozart é o divino impessoal. Chopin conta a sua vida mais íntima. Schoenberg, através de seu eu, atinge o clássico eu de todo o mundo. Beetho­ven é a emulsão humana em tempestade procurando o divino e só o alcançando na morte. (…)
Eu tenho que ter paciência pois os frutos serão surpreendentes.
Este é um livro silencioso. E fala, fala baixo.
Este é um livro fresco — recém-saído do nada. Ele é tocado ao piano delicada e firmemente ao piano e todas as notas são límpidas e perfeitas, umas separa­das das outras. Este livro é um pombo-correio. Eu es­crevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. Eu não faço lite­ratura: eu apenas vivo ao correr do tempo. (…)
Eu quero a verdade que só me é dada através do seu oposto, de sua inverdade. E não agüento o cotidiano. Deve ser por isso que escrevo. Minha vida é um único dia. E é assim que o passado me é pre­sente e futuro. Tudo numa só vertigem. E a doçura é tanta que faz insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável. (…)

Clarice Lispector in Um sopro de vida.

A solidão é um luxo.

“O motivo básico de minha vida é que em certa hora sou guiada por uma grande fome. Isso me explica. Sou indireta. Sou uma pessoa que é de repente e fico meio desesperada quando penso no impossível. Por exemplo: jamais conseguirei que o imperador do Japão me telefonasse. Eu poderia estar morrendo e ele não me telefonaria. Ou então: como localizar uma pes­soa que não está em casa? O impossível me submete. Feneço. Só no domingo passado à noite — sozinha com o meu cachorro — é que meu corpo se juntou a meu corpo. E eu então fui. Fui eu.
Estou com fome e triste. É bom ficar um pouco triste. É um sentimento de doçura. E é bom ter fome e comer.
A mais bela música do mundo é o silêncio interestelar.
Desculpe, mas não posso ficar sozinha contigo se­não nasce uma estrela no ar. Quem ama a solidão não ama a liberdade.
Flor? flor dá cada susto. O silêncio perfeito de uma flor. Macio como quando se fecha â luz para dor­mir. E faz o botão da luz um barulhinho que quer dizer: boa noite meu amor.
Ah, estou com desejo! quero comer salmão e to­mar café. E bolo de trigo. Tudo não passa de uma grande comédia com ar de quermesse. Quero participar da festa dos animais. Nas sombras o jardim rumore­jante. O jardim cúmplice. Esconderijo de pardais. Si­gilo. O jardim harpejado… Intumescência criadora. Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava total­mente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mer­gulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo.

Clarice Lispector in Um Sopro de Vida

flor

“Foi, pois, assim que o explorador descobriu, toda em pé e a seus pés, a coisa humana menor que existe. Seu coração bateu porque esmeralda nenhuma é tão rara. Nem os ensinamentos dos sábios da Índia são tão raros. Nem o homem mais rico do mundo já pôs olhos sobre tanta estranha graça. Ali estava uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar. Foi então que o explorador disse, timidamente e com uma delicadeza de sentimentos de que sua esposa jamais o julgaria:
— Você é Pequena Flor.”

Clarice Lispector – trecho de “A menor mulher do mundo”

“una furtiva lacrima”

… cantada por um homem chamado Caruso que se diz que já morreu. A voz era tão macia que até doía ouvir. A música chamava-se “Una Furtiva Lacrima”. Não sei por que eles não disseram lágrima. “Una Furtiva Lacrima” fora a única coisa belíssima na sua vida. Enxugando as próprias lágrimas tentou cantar o que ouvira. Mas a sua voz era crua e tão desafinada como ela mesma era. Quando ouviu começara chorar. Era a primeira vez que chorava, não sabia que tinha tanta água nos olhos. Chorava, assoava o nariz sem saber mais por que chorava. Não chorava por causa da vida que levava: porque, não tendo conhecido outros modos de viver, aceitara que com ela era “assim”. Mas também creio que chorava porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma. Muitas coisas sabia que não sabia entender…

Clarice Lispector in A hora da estrela.

eu amo o amor

Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto — é para lá que eu vou.
A ponta do lápis o traço. Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia — é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou — é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas.
Se continuam mágicas. Realidade? Eu vos espero. É para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra “tertúlia” e não sei onde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim.
É para mim que vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois — depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar.
Mim é um eu que anuncio. Não sei sobre o que estou falando.
Estou falando do nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos.
Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta?
A do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? Que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama.
Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? Está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.

Clarice Lispector

esperança

Mas se através de tudo corre a esperança, então a coisa é atingida. No entanto a esperança não é para amanhã. A esperança é este instante. Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. E a esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer.

(Clarice Lispector in Aprendendo a viver, ed  2004. p.103)

bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie

DAS VANTAGENS DE SER BOBO
Clarice Lispector

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo, estou pensando.”
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

… havia o nunca e havia o sim. Sempre houve…

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos?
Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade.
Felicidade? Nunca vi palavra mais doida (…)
Mas que ao escrever – que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a. Esse vosso Deus que nos mandou inventar.
Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.
Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Clarice Lispector – A hora da Estrela