entrar-te pelo olfato

Poema de Amor
Gilka Machado

Ser a atmosfera
que respiras,
conter-te em mim
como numa redoma,
entrar-te pelo olfato,
assim como as aspiras
invisíveis, do aroma…

Ser teu ambiente,
ser teu espaço circundante,
sentindo em mim roçar,
constantemente,
teu gesto palpitante…

Ser o silêncio
em que te enfurnas,
guardar teus
lentos pensamentos,
pelas horas noturnas…

Ser o teu sono,
sentir-te assim
como ninguém te sente
– abandonado
completamente
completamente esquecido
em mim…

Oh! meu prazer!
– sentir-te
e penetrar-te;
– em toda hora,
em toda parte,
gozar teu ser!
Sem que
o pudesses perceber;
– ser por ti absorvida;
– encher com minha vida
a tua vida

Anúncios

“alegria de amar que me alvoroça a mente e o sangue me acelera”

Alegria de Amar
Gilka Machado

Alegria de amar
– anseio de apertar
nos meus braços o mar,
de desfolhar
as rosas com meus beijos!…

Alegria de amar
– desejo de, num grito,
ascender,
ascender,
para o azul do infinito
e espreguiçar-me
pelas curvas de éter!…

Alegria de amar
– vontade de escrever
nos longes do ar,
para que de onde estás
pudesses lê-las,
estas estrofes,
mas com o fogo das estrelas!

Alegria de amar,
– inquietação
que tento em vão
refrear,
volúpia
que em meus membros
tumultua,
de sair pela rua
em desatino,
como se houvesse marcado
um encontro com o Destino!…

Alegria de amar
– necessidade de desabafar
recalcada tristeza,
de te sonhar disperso
na beleza,
de te afagar
em toda a natureza,
como se, por milagre,
me chegasses!
Alegria de amar
que me transborda
em lágrimas nas faces

Alegria de amar
na manhã transparente,
na tarde azul,
na noite cheia de fulgor;
alegria de amar
indefinidamente,
à criação,
às criaturas,
ao Criador!…

Alegria de amar
que me alvoroça a mente
e o sangue me acelera,
que me faz caminhar
alucinadamente,
com todo o corpo
de saudade doente,
na esperança infantil
de saber que
alguém me espera!…

Teu olhar abre os braços…

Fecundação
Gilka Machado

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura.

Tua mão contém a minha
de momento a momento
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser,
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

“um encontro com o Destino!…”

Alegria de Amar
Gilka Machado

Alegria de amar
– anseio de apertar
nos meus braços o mar,
de desfolhar
as rosas com meus beijos!…

Alegria de amar
– desejo de, num grito,
ascender,
ascender,
para o azul do infinito
e espreguiçar-me
pelas curvas de éter!…

Alegria de amar
– vontade de escrever
nos longes do ar,
para que de onde estás
pudesses lê-las,
estas estrofes,
mas com o fogo das estrelas!

Alegria de amar,
– inquietação
que tento em vão
refrear,
volúpia
que em meus membros
tumultua,
de sair pela rua
em desatino,
como se houvesse marcado
um encontro com o Destino!…

Alegria de amar
– necessidade de desabafar
recalcada tristeza,
de te sonhar disperso
na beleza,
de te afagar
em toda a natureza,
como se, por milagre,
me chegasses!
Alegria de amar
que me transborda
em lágrimas nas faces

Alegria de amar
na manhã transparente,
na tarde azul,
na noite cheia de fulgor;
alegria de amar
indefinidamente,
à criação,
às criaturas,
ao Criador!…

Alegria de amar
que me alvoroça a mente
e o sangue me acelera,
que me faz caminhar
alucinadamente,
com todo o corpo
de saudade doente,
na esperança infantil
de saber que
alguém me espera!…

“tua palavra mente ao meu ouvido”

Pelo telefone
Gilka Machado

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás…
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz.
a falsidade em que procuro crer.

Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!

Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!…

“Os meus retratos são vários”

O retrato fiel
Gilka Machado

Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!

Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;

naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.

Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.

Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.