“resto de lágrimas sobre lábios calados”

Lábios que não se abrem, lábios…

Lábios que não se abrem, lábios
com seu segredo
calado

Segredo no ermo da noite
resiste à rosa dos ventos
calado.

Flauta sem a vibração
do sopro.
Luar e espelho, frente a frente,
em calada
vigília.

Fria espada unida
ao corpo.

Resto de lágrimas sobre
lábios
calados.

Borboleta da morte
em sorvo
pousada à flor dos lábios
calados
calados.

Henriqueta Lisboa

“no maior silêncio”

Fidelidade
Henriqueta Lisboa

Ainda agora e sempre
o amor complacente.
De perfil de frente
com vida perene.
E se mais ausente
a cada momento
tanto mais presente
com o passar do tempo
à alma que consente
no maior silêncio
em guardá-lo dentro
de penumbra ardente
sem esquecimento
nunca para sempre
doloridamente.

“que tenho a ver contigo se não leste o livro que li, não viste a rosa que plantei…”

Do Supérfluo
Henriqueta Lisboa

Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?

“segredo calado”

Lábios que não se abrem, lábios
com seu segredo
calado

Segredo no ermo da noite
resiste à rosa dos ventos
calado.

Flauta sem a vibração
do sopro.
Luar e espelho, frente a frente,
em calada
vigília.

Fria espada unida
ao corpo.

Resto de lágrimas sobre
lábios
calados.

Borboleta da morte
em sorvo
pousada à flor dos lábios
calados
calados.

Henriqueta Lisboa

“na intimidade dos miosótis…”

O Dia Azul
Henriqueta Lisboa

O dia azul antecipou-se
ao lento despertar dos bosques.
Tudo azul! diziam em coro
os de pálpebras abertas.
Porém os olhos em refolhos
só descobriam sobre a relva
a minudência dos miosótis.

O dia azul veio em atraso
na esperança de contemplado.
É tempo ainda azul sem nuvens!
anunciavam vozes de alerta.
Porém os olhos em refolhos
já se esqueciam junto à relva
na intimidade dos miosótis…

“E há de relance, no seu riso, gume de aço e polpa de amora”

A menina selvagem
Henriqueta Lisboa

A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.
Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.
A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Ofereci bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

“Pequenina doçura delicada”

Serenidade

Há muito tempo, Vida, prometeste
trazer ao meu caminho uma doida alegria
feita de espírito e de chama,
uma alegria transbordante, assim como esse
alvo clarão que se irradia
da orla festiva das enseadas,
e entre reflexos de ouro se derrama
do cântaro das madrugadas.

Eu, que nasci para um destino manso
de coisas suaves, silenciosas, imprecisas,
e que fico tão bem neste obscuro remanso
onde apenas se infiltra um perfume de brisas,
imagino a tremer: que seria de mim
se essa alegria
esplêndida, algum dia,
houvesse surpreendido a minha inexperiência!…

A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.

Minha alegria deveria ser assim:
Pequenina doçura delicada,
gota de orvalho em pétala de flor,
sempre serena lâmpada velada
que me diluísse as brumas do interior.

Sempre serena lâmpada velada,
símbolo do meu sonho predileto…
Se amanhã tu penderes do meu teto
aureolando minha última ilusão,
– para que eu viva em teu amor e em tua paz,
deixa um rastro de sombra pelo chão…
É nesta sombra que hei de me esconder
quando sentir a falta que me faz
a outra alegria que não pude ter!

Henriqueta Lisboa – do livro Velário (1930 – 1935)

“ouvir-lhe o segredo”

Os lírios
Henriqueta Lisboa

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranqüila.

“Nunca ninguém sabe se estou”

O mistério da mulher está em cada afirmação ou abstinência, na malícia das plausíveis revelações, no suborno das silenciosas palavras.

 

 

Henriqueta Lisboa

Nunca ninguém sabe se estou
louco para rir ou para chorar…
Por isso o meu verso tem
esse quase imperceptível tremor…
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso
Ninguém por ninguém!
Por nenhum amor…
A vida continua, indiferente!

 

Mário Quintana