carta…

aqui, tudo é bonito e quieto, a gente
vai vivendo uma vida sempre igual…
– há um dia que o regato de cristal
de águas turvas ficou devido à enchente…

os dias têm passado, lentamente,
e um tédio sinto em mim, de um modo tal,
que às vezes, fico até sentimental,
lembrando-me de ti, saudosamente…

quando estavas aqui, – tudo era lindo…
como um doce casal de beija-flores,
vivíamos os dois sempre sorrindo…

por que não voltas?… vem!… – se tu voltares
o céu há de cobrir-se de outras cores…
– as flores voltarão pelos pomares!..

(J.G.de Araújo Jorge)

Anúncios

adeus…

vou partir… vais ficar… quanta tristeza
há dentro em mim ao pensar nisso – quanta!
– parece que em minha alma se levanta
um protesto ao destino e à natureza…

vou partir… no meu peito já não canta
o feliz coração – tenho certeza
que outros virão sentir tua beleza…
(ó dor maior que a própria dor suplanta!)

vais ficar… bem sei… destino ingrato!
hei de ter-te no entanto na lembrança,
e hei de sempre beijar o teu retrato…

– não sentiste o pulsar dos versos meus…
vou partir sem levar uma esperança,
e irei sofrendo eternamente… – adeus !…

(J.G. de Araújo Jorge)

quarta-feira de cinzas…

toda a terra está envolta nas neblinas
e a friagem se difunde pelo espaço…
– longe se ouve, em cadência, passo a passo
o caminhar dos boêmios nas esquinas…

pela sombra – as estrelas pequeninas
com sono, tem o olhar nevoento e baço…
no silêncio da noite ouço o compasso
do sereno a pingar das serpentinas…

algum bando tardio passa adiante
– e deixa pela noite uma batida
de samba em agonia – estrebuchante…

quarta-feira de cinzas já amanhece,
– mais outro carnaval em minha vida,
vida que há muito um carnaval parece !…

(J.G. de Araújo Jorge)

meu primeiro amor…

(um pouco tardiamente…)

o meu amor primeiro… o meu primeiro amor,
foi anseio, e viveu na incerteza de uma ânsia,
-botão que não se abriu… que não chegou a flor,
-um pedaço de céu, quase limpo e sem cor
perdido nos senfins azuis da minha infância…

silhueta a se apagar, mas que o meu Ser divisa,
uma emoção feliz que nem foi emoção…
-nuvem leve a fugir aos impulsos da brisa,
tênue… vaga… sutil… bem distinta e imprecisa,
passando na memória do meu coração…

o meu primeiro amor, – um vulto que esqueci
num canto da lembrança a dormir empoeirado,
-um rosto que apagou porque nunca mais vi,
-um quadro que se esvai, e que deixei ali
esquecido no sótão velho de um passado…

alma de uma ilusão pequenina e simplória
que se dissolve em mim… e aos poucos se desfaz…
parece outro destino, outra vida, outra história,
quando o tento arrancar das sombras da memória
tão longe… que ao lembrar-me… eu nem me lembro mais…

o meu primeiro amor… a primeira esperança
que abriu asas de sonho a procurar o além,
-hoje, é apenas lembrança a brincar na lembrança
levado na tristeza do que não se alcança,
na saudade de tudo o que nunca mais vem!

pétala que entre um livro amarelou, perdida,
há muito tempo, há muito tempo… por alguém que o leu,
-e hoje, ao encontrá-la, seca e fenecida
no romance sem fim da minha própria vida
nem sei se quem a pos entre as folhas fui eu…

o meu primeiro amor… o meu amor primeiro,
foi uma história azul dessas de; era uma vez;…
-uma história feliz… um conto verdadeiro
que um dia o meu Destino, um velho feiticeiro,
quis fazer mas não soube terminar talvez…

minha glória primeira… e o meu maior desejo
de crescer, de subir, de explicar o universo!
passou… foge de mim… mas ainda o sinto e o vejo,
-porque ele é a sensação do meu primeiro beijo
e a impressão imortal do meu primeiro verso!

(J.G. de Araújo Jorge)