A mata dormia o seu sono jamais interrompido…

A mata dormia o seu sono jamais interrompido. Sobre ela passavam os dias e as noites, brilhava o sol do verão, caíam as chuvas do inverno. Os troncos eram centenários, um eterno verde se sucedia pelo monte afora, invadindo a planície, se perdendo no infinito. Era como um mar nunca explorado, cerrado no seu mistério. A mata era como uma virgem cuja carne nunca tivesse sentido a chama do desejo. E como uma virgem era linda, radiosa e moça apesar das árvores centenárias. Misteriosa como a carne de mulher ainda não possuída. E agora era desejada também.

Da mata vinham trinados de pássaros nas madrugadas de sol. Voavam sobre as árvores as andorinhas de verão. E os bandos de macacos corriam numa doida corrida de galho em galho, morro abaixo, morro acima. Piavam os corujões para a lua amarela nas noites calmas. E seus gritos não eram ainda anunciadores de desgraças já que os homens ainda não haviam chegado à mata. Cobras de inúmeras espécies deslizavam entre as folhas secas, sem fazer ruído, onças miavam seu espantoso miado nas noites de cio.

A mata dormia. As grandes árvores seculares, os cipós que se emaranhavam, a lama e os espinhos defendiam o seu sono.

Da mata, do seu mistério, vinha o medo para o coração dos homens. Quando eles chegaram, numa tarde, através dos atoleiros e dos rios, abrindo picadas, e se defrontaram com a floresta virgem, ficaram paralisados pelo medo. A noite vinha chegando e trazia nuvens negras com ela, chuvas pesadas de junho. Pela primeira vez o grito dos corujões foi, nesta noite, um grito agoureiro de desgraça. Ressoou com voz estranha pela mata, acordou os animais, silvaram as cobras, miaram as onças nos seus ninhos escondidos, morreram andorinhas nos galhos, os macacos fugiram. E, com a tempestade que desabou, as assombrações despertaram na mata. Em verdade teriam elas chegado com os homens, na rabada da sua comitiva, junto com os machados e as foices, ou já estariam elas habitando na mata desde o início dos tempos? Naquela noite despertaram e eram o lobisomem e a caipora, a mula-de-padre e o boitatá.

Os homens se encolheram com medo, a mata lhes infundia um respeito religioso. Não havia nenhuma picada, ali habitavam somente os animais e as assombrações. Os homens pararam, o medo no coração. (…)

E, de súbito, na noite de temporal, diante da mata, os homens descobriam esse recanto trágico do universo, onde habitavam as assombrações. Ali, na mata, em meio da floresta, sobre os cipós, em companhia das cobras venenosas, das onças ferozes, dos agoirentos corujões, estavam pagando pelos crimes cometidos aqueles que as maldições haviam transformado em animais fantásticos. Era dali que nas noites sem lua partiam para as estradas a esperar os viandantes que buscavam seus lares. Dali partiam para amedrontar o mundo. Agora, em meio do ruído do temporal, os homens parados, pequeninos, ouvem, vindo da mata, o rumor das assombrações despertadas. E vêem, quando cessam os raios, o fogo que elas lançam pela boca, e vêem, por vezes, o vulto inimaginável da caipora bailando seu bailado espantoso. A mata! não é um mistério, não é um perigo nem uma ameaça. É um deus.

Não há vento frio que venha do mar. Distante está o mar de verdes ondas. Não há vento frio, nessa noite de chuva e relâmpagos. Mas, ainda assim, os homens estão arrepiados e tremem, se apertam os seus corações. A mata-deus na sua frente. O medo dentro deles.

Deixaram cair os machados, os serrotes e as foices. Estão de mãos inertes diante do espetáculo terrível da mata. Seus olhos abertos, desmesuradamente abertos, vêem o deus em fúria ante eles. Ali estão os animais inimigos do homem, os animais agoureiros, ali estão as assombrações. Não é possível prosseguir, nenhuma mão de homem pode se levantar contra o deus. Recuam devagar, o medo nos corações. Explodem os raios sobre a mata, a chuva cai. Miam as onças, silvam as cobras, e, sobre todo o temporal, as lamentações dos lobisomens, das caiporas e das mulas-de-padre, defendem o mistério e a virgindade da mata. Diante dos homens está a mata e o passado do mundo, o princípio do mundo. Largam os facões, os machados, as foices, os serrotes, só há um caminho, é o caminho da volta.

(Jorge Amado in Terras do Sem Fim)

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