do insulto e do elogio

DO INSULTO E DO ELOGIO

Pobres daqueles que acreditam em insultos e desconfiam de elogios

Jorge Forbes

Existe, eu diria, um fascínio, uma sedução, uma hipnose no insulto. As pessoas ficam hipnotizadas ao serem insultadas. Diferente-mente do elogio, que é sempre questionável, o insulto não deixa dúvida sobre o seu alvo. Há uma tendência a dar peso de verdade ao insulto e a desconfiar do elogio.

Fomos ensinados a não tomar para nós os elogios, a justificá-los como conseqüência de outras pessoas que nos ajudaram, à sorte,ao acaso. A boa educação manda dizer: “Não é bem assim”, “Não é tanto”, “É porque sou seu filho”, “Caiu nas minhas mãos”. Se por um lado desconfia-se do elogio, por outro ninguém põe o insulto sob suspeita. Ele é certeiro.

Por estar prestando uma “homenagem” aquele que elogia se põe a serviço do elogiado: ele se faz “homem a serviço de.” Quem elogia freqüentemente é criticado pelo que disse. Ele corre um risco porque, ao elogiar, fala mais de si que do outro: “Não seja bajulador” “Bonita, ela? Ora, você está cego!”, “Mas como você foi falar uma coisa dessas?!”, “Você vai votar nesse cara?”

Já quem insulta não fala de si. Em geral, o insultante é visto como tendo razão, ele é honesto, é verdadeiro. Por quê? Porque quem insulta toca o ser do outro. O prazer de receber um nome pode ser maior que o desprazer provocado pelo qualificativo desse nome. Quando alguém diz “filho da mãe”, o insultado pode não sentir o destrato suficientemente e dizer que ser filho da mãe não é tão grave.

Mas, se o outro insiste “de uma prostituta”, ele pode reagir e dizer que o insultante exagerou! Da mesma forma que entre a vítima e seu carrasco, há certa cumplicidade entre o insultado e o insultante. A cumplicidade deriva do fato do insultado ter recebido um nome. É melhor ser “filho da mãe” que não ser nada, base do dito “falem mal, mas falem de mim”.

Muitas pessoas dedicam suas vidas a fazer com que se fale mal delas. Nos antigos festivais da música popular brasileira, o Sérgio Ricardo conseguia ser vaiado no começo, no meio e no fim de cada apresentação. Outras pessoas, ao contrário, não admitem o insulto. Numa conhecida apresentação no Rio de Janeiro, Caetano Veloso, elegantemente vestido, ficou furioso sentindo-se insultado, quando alguém lhe disse para tirar a gravata.

Há certo prazer, uma cumplicidade do obsessivo com o insulto. Freud pensava que tal prazer o defende da paranóia. Ao escutar alguém dizer que ele é filho da mãe, o obsessivo imagina que pode ter sido pior. O insulto o defende do superego terrível sempre pior que qualquer insulto social. Nada como o superego para insultar quando se é complacente com ele.

Os homens, de certa forma, são mais dóceis ao insulto que as mulheres. Lembro-me da cena inicial do filme Full Metal Jacket, de Stanley Kubrick. O sargento perfila os recrutas e pergunta a cada um o seu nome. O loirinho com cara de bobo diz: “Sou do interior dos Estados Unidos, chamo-me Michael Backson e estou aqui para servir os Estados Unidos da América”. O sargento retruca: “Você não é nada disso, você é um canalha”. Ele responde: “Yes, Sir”. Assim percebe, no momento em que recebe o insulto, que foi admitido no exército.

O insulto está presente em comunidades onde a identificação de seus membros é pouco clara. Se o insulto marca o ser, quanto menos clara for esta marcação maior a possibilidade de manifestação do insulto. Na comunidade analítica, que toca ao psicanalista de perto, o insulto tem história. Poderíamos dizer que os cem anos da história da psicanálise foram cem anos de insultos, difamações e injúrias. O psicanalista, talvez por força do hábito, tem outra forma de responder à vacuidade do ser e à complacência em face do insulto.

Nota-se uma diferença fundamental entre um congresso de psiquiatras e um de psicanalistas. Os primeiros discutem os mais variados temas, menos o que é ser um psiquiatra. Eles sabem: é alguém que fez seis anos de medicina, dois ou três de especialização, e deram provas de sua pertinência no campo de saúde mental.

Poderíamos dizer o mesmo dos psicólogos, engenheiros, advogados, administradores de empresas, etc. Todos sabem quem são esses profissionais. Mas, e o psicanalista? A extensão do conceito de psicanálise é cheia mas a intensão é vazia.

Sabemos que existem psicanalistas, no plural. Difícil é definir o singular. Querer detectar a diferença entre eles é deparar-se com a dificuldade de apreender a essência. Freud, Lacan, Melanie Klein, Balint e Winnicott foram psicanalistas, mas, o que possuíam em comum na maneira de ser, de escrever, de conduzir as análises? No entanto, todos foram psicanalistas.

Em congressos, não se pára de discutir o que é ser psicanalista. É comum o caso daquele que duvida, um pouco, se ele mesmo é ou não um psicanalista, mas tem absoluta certeza que os outros não são. Vivem dizendo o que falta ao outro para sê-lo: “Falta mais análise”, “Se tivesse feito uma melhor supervisão…”, “Se estudasse mais…”.

Depois de apontar a falta de análise, supervisão e estudo, chegam a uma palavra mágica para dizer o que falta aos analistas: falta ética. Acham que ética é uma qualidade do ser, um estado. E nesse momento, nessas comunidades, vemos o insulto em todo o esplendor.

O insulto pode ser um tema de referência aos questionamentos da “Segunda clínica de Lacan”, “Clínica do gozo”, “Clínica do sintoma”, que se ocupa de saber das possibilidades da palavra captar algo do ser.

Retomo as conseqüências de um caso clínico, descrito em meu trabalho “Ridículas palavras recalcadas”, já algumas vezes comentado.

UM CASO CLÍNICO

Descrevo três momentos fundamentais da intervenção analítica.

José, um latino americano, do interior, sentia-se burro em sua casa no meio de seus dois brilhantes irmãos. Em conversas familiares, sempre que tentava falar, ouvia do pai ou dos irmãos que, para expressar sua opinião, teria antes de fazer um curso na USP. José sai de seu país, vai para São Paulo, estuda na USP e torna-se professor nessa universidade.
Ao assistir Forrest Gump, ele se identifica com o personagem – o idiota que dá certo – e começa a se questionar se não teria havido uma outra forma de dar certo na vida sem que necessariamente tivesse de ter feito um curso na USP. Por que todo aquele exaustivo percurso, quando o personagem do filme, “tão idiota quanto ele”, tinha grande sucesso? Ele descobre dessa forma a origem, as razões que o levaram a fazer análise: o fato de se sentir sempre aquém de um projeto. Mesmo se dando conta de suas realizações ele, ainda assim, se sentia aquém de algo. Vivia angustiado, tinha sintomas gástricos sérios, insatisfação e irritação freqüentes, problemas no relacionamento amoroso.

Ele entendeu, naquele momento, a origem do seu mal-estar, concluindo haver encontrado a verdade de sua própria história. Tinha sofrido com os ideais familiares. Ao se submeter à cultura uspiana, pagou com o próprio corpo por aquele ideal e, ao saber disso, pensou que poderia viver de forma mais flexível, com menos censura a respeito de suas realizações. Depois de sair do filme, chorou a noite toda, muito sensibilizado com o que ele tinha vivido. Na primeira sessão de análise do dia seguinte, conta o ocorrido, poderíamos dizer, numa entrega total: “Essa é a minha verdade!” Assim que ele termina o relato, a sessão foi interrompida. Sai chateado com a falta de solidariedade e de apoio ao seu “material” – como se chamava antigamente.

Como uma mãe que entrega o seu bebê nas mãos de uma outra e esta exclama “Que bonitinho!” e abre os braços, José viu cair o bebê, que esperava depositar nos braços do analista-mãe. Volta para uma segunda sessão, profundamente desconfiado. Já sabe que não pode se entregar àquela verdade com tanta emoção, que aquele analista recebe o bebê de braços muito abertos. Ainda assim, relata novamente toda a história, como se fosse um advogado de si mesmo.

Esta segunda sessão poderia ser dividida em dois momentos. No primeiro, José pergunta ao analista: “Você interrompeu a sessão porque você achou que devia, ou porque a sala de espera estava com muita gente?” E a resposta: “Porque eu achei que devia”. O segundo momento – logo depois dele relatar o que sabe sobre sua verdade e seu mal-estar é o da interpretação, a meu ver, marcante nesse tratamento: “Você arriscava acreditar excessivamente nisso tudo”.

Podemos representar essa interpretação em um esquema elementar, com uma barra sobre o insulto:

“Você arriscava acreditar excessivamente nisso tudo”

I N S U L T O

Alguém poderia pensar: onde está o insulto pois não houve injúria nem difamação?

Em sua origem, o termo “insultar” não significa falar mal de alguém. Do latim, sulto, insultare, tem a mesma origem do termo “saltar”. “Insultar” quer dizer “pular em cima”, “saltar sobre”, fixar um nome a um objeto. “Injuriar” é fazer um julgamento errôneo; e “difamar”, fazer a pessoa parecer diferente do que é, deslocá-la. Com o tempo, verificou-se que, ao se falar mal de uma pessoa, insulta-se bem. Desta forma, na transformação verificada na língua, “insultar” tornou-se sinônimo de falar mal de alguém.

Isso explica também porque, numa relação sexual, nos segundos anteriores ao orgasmo, insultar não significa falar mal. Nesse momento, certas falas podem dar excelência ao coito. Às vezes, o orgasmo é melhor atingido com palavras coadjuvantes que em silêncio. A exceção fica por conta de pessoas que falam línguas diferentes. Por não terem o mesmo registro afetivo, certas palavras indicadoras de carinho ou de sensualidade numa língua podem tornar-se extremamente ridículas em outra. “Insultar” seria então saltar sobre, pôr um nome sobre uma pessoa, etiquetá-la.

Por que, então, dizer “Você arriscava acreditar excessivamente nisso tudo”? Porque, às vezes, mesmo uma bela história pode se tornar um insulto e fixar o sujeito a um ponto. O insulto é o oposto da liberdade, mesmo que seja um “bom insulto”. Nesta perspectiva, quando um elogio fixa o objeto elogiado num determinado ponto, mata o objeto, tanto quanto o insulto. Mesmo quando o elogio está dirigido a uma pessoa viva, a quem procura dignificar, ele pode mortificar, deixando-a constrangida.

Do que se conclui que o maior dos elogios é o elogio fúnebre; momento em que se fixa um nome a um corpo: “aqui jaz…” Não tenhamos dúvidas, o elogio fúnebre fala daquilo lá.

Os políticos costumam empregar o elogio como forma de calar a boca do adversário: “Você que é muito inteligente, que tem grande experiência na administração e já passou pelas agruras de um administrador público, sabe que tenho razão”. Se o outro negar e disser que não tem, estará admitindo que é um mau administrador, sem experiência. É o jogo da oratória política vulgar, banal, utilizado com muita freqüência.

O fato do analista ter interrompido a sessão de José e feito aquela interpretação funcionou como alerta para se desconfiar das boas descobertas a respeito de si. Tais descobertas também podem ser insultantes.

Nenhuma boa história é capaz de dignificar a coisa sexual. È uma fórmula semelhante à defendida por Lacan no Seminário 17, a ética da psicanálise, quando ele diz que a psicanálise eleva o objeto à dignidade da coisa. Toda explicação da coisa é indigna porque deixa algo de fora. A psicanálise convida a que se sustente dignamente a sexualidade, na trajetória da vida. E não de forma indigna, difamada ou deslocada, como as que Freud examinou nos textos sobre a “Psicologia do Amor” (1910): homens e mulheres se destratam na intolerância do “encontro”. Digo que há um encontro quando se pode suportar a surpresa. Neuróticos, perversos e psicóticos são pessoas que não se surpreendem, que perderam a capacidade da surpresa. Ao fazer aquela interpretação, houve, por parte do analista, uma indicação de que, se existe um saber que se adquire na análise, existe também algo que tem de ser deixado de fora desse saber.

A partir desse caso, propus um matema: no primeiro período, José sabia que veio da América Latina, de uma família com dois irmãos. Sabia de sua história como cada um sabe um pouco da sua. Ele tinha um saber positivo (S+), mas um saber que não o tocava, uma verdade negativa (V-).

Localizo uma mudança no período entre assistir ao filme Forrest Gump até à sessão de análise, onde surge um saber positivo e uma verdade positiva (S+,V+). O insulto aparece nesse ponto, o justo saber a respeito de uma pessoa. É falar a verdade, justamente: “Você é isso”.

A interpretação “você arriscava acreditar excessivamente nisso tudo” põe em dúvida esse saber, põe nele um menos (S-), limitando-o, mantendo o positivo da verdade (V+). Insisto nesse ponto: a interpretação analítica da segunda clínica de Lacan não aponta o ilimitado do saber, como em Freud, e até bem recentemente. Ao contrário, ela marca uma limitação do saber. Observe-se essa mudança notável na psicanálise, hoje em dia. Explicarei os demais pontos desse quadro mais adiante.

Entre 1950 e 1960, o fim de uma análise representava o fim da criatividade do analista, sua impossibilidade de sacar da cartola mágica novas significações sobre seu analisando. Havia analistas que capitulavam frente ao fato e sugeriam que o analisando procurasse outro analista mais criativo.

Esperava-se sempre que o inconsciente salvasse o sujeito de suas besteiras. O culpado era sempre ele: “Só se foi inconscientemente…” Era o 007 que, com sua carteirinha, podia fazer qualquer coisa, por se tratar de um agente especial. Os analisandos eram todos agentes especiais do inconsciente. Dizer que estava em análise era uma forma de explicar os tresloucamentos. Isso fazia com que maridos e mulheres insistissem para que seus respectivos entrassem em análise, e, em seguida, para que saíssem…

Jacques-Alain Miller chamou essa nova interpretação analítica, que põe limite à significação, de “Interpretação pelo avesso”. O analista colocava um basta ao sentido. Na interpretação “você arriscava acreditar excessivamente nisso tudo” há uma limitação: Chega! “Eu não lhe acompanho nessa história, nas significações que você está procurando”. Limitar o saber é uma forma de manter a verdade desatada, o que faz com que uma análise vá do saber ao verdadeiro. Faz-se uma disjunção entre saber e verdade, ao dizer que existe uma verdade incômoda a todo saber.

Anúncios