“me voglio scurdà ’e te”

A ENTROPIA

 

Aconteceu como quando nos apaixonamos; encontrei-a por acaso em Milão e depois, pouco a pouco, compreendi que não podia viver sem ela. Estou falando da filosofia, desta estranha ciência que, para ser sincero, nem ao menos sei bem o que seja, mas que no final das contas mudou o meu modo de viver.

 

No tempo dos gregos a filosofia era identificada com o conhecimento, no sentido mais amplo da palavra. Depois, com o passar dos anos, algumas das ramificações que a constituíam (como a astronomia, a física, a política e a medicina) tornaram-se ciências próprias, deixando à filosofia apenas a ética, a lógica e a ontologia.

 

O inventor da palavra “filosofia” parece ter sido Pitágoras; depois dele, muitos outros procuraram uma definição que pudesse de algum modo circunscrever a área de interesse da matéria; os resultados, porém, jamais foram satisfatórios. Só para se ter uma idéia de quantos possam ser os temas da filosofia, eis algumas definições tomadas de dicionários ou de especialistas no assunto: “Ciência que estuda os princípios e a razão última das coisas” (Palazzi), “Busca de um saber capaz de obter uma vantagem efetiva” (Zingarelli), “Reflexão do espírito humano sobre o mundo que o circunda e sobre si mesmo” (De Ruggero), “Algo entre a ciência e a teologia” (Russell).

 

Na escola, a primeira idiotice que se aprende é que “A filosofia é aquela coisa com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”, o que também poderia ser verdade se permanecêssemos sempre adolescentes, despreocupados e sobretudo imortais. O que acontece é que com o tempo percebe-se que sem as muletas de qualquer fé ou o conforto da apátheia, ou seja, o distanciamento das paixões, vive-se muito mal. Sócrates afirmava que aqueles que “filosofam corretamente” são indivíduos que “se exercitam para morrer”. Nós que, ao contrário, somos mais alegres, servimo-nos da filosofia para melhorar a qualidade da vida. No final descobrimos que ambas as definições querem dizer a mesma coisa e que a única diferença substancial entre as duas maneiras de conceber a vida é se é preferível visar ao máximo de felicidade ou contentar-se com o mínimo de sofrimento.

 

Às vezes me pergunto se os magnatas das finanças, os Agnelli, os De Benedetti, os Gardini, os Berlusconi se divertem realmente comprando e vendendo impérios econômicos. Experimentam um sentimento de felicidade quando voltam para casa, à noite, com milhões a mais na carteira? Os chefões da camorra e da máfia, os Cutolo, os Liggio, os Rijna, acham compensador fazer um trabalho que em termos práticos também significa processos, cadeia, guarda-costas e vinganças que se estendem a mães, esposas e irmãos? Os grandes homens políticos, os De Mita, os Craxi, os Andreotti, alguma vez se perguntaram se é mais agradável a vida de um homem de poder ou a de um pai de família, talvez um simples funcionário público que, contudo, vai diariamente buscar a filha na escola? Ora, os ditos senhores, bem ou mal, não são criaturas despreparadas e no entanto acabam todos parecendo rapazinhos que se pegam a tapas enquanto jogam Monopólio. Querem apostar que se tivessem meditado um pouco mais sobre os problemas da filosofia, viveriam melhor?

 

Na escola não tive tempo de apreciar devidamente a filosofia. Tendo de saber toda a matéria dos últimos três anos para o vestibular, fui obrigado a resumi-la ao máximo, razão pela qual substituí o difícil Lamanna pelo pequeno Bignami, um livrinho de capa marrom severamente proibido por todo o corpo docente. Chegando porém bem próximo dos exames achei pesado também o Bignami e debrucei-me sobre alguns apontamentos que defini como “sintéticos”, em que Tales, Anaxímenes e Heráclito se haviam simplificado até se tornarem respectivamente “aquele da água”, “aquele do ar” e “aquele do fogo”.

 

Somente depois do meu divórcio comecei a entender alguma coisa de filosofia. Estava ainda apaixonado por minha mulher e sofria muito com a solidão. Certa noite em que me sentia particularmente deprimido, escutei no rádio, por acaso, uma velha canção de Libero Bovio. Dizia o poeta: “Me ne voglio ì all’America ca sta luntano assaie, me ne voglio ì addò maie, te pozzo ncuntrà cchiù. Me voglio scurdà ’o cielo, tutte ’e canzone e ’o maré, me voglio scurdà ’e Napule, me voglio scurdà ’e mammema, me voglio scurdà ’e te”.*

 

No dia seguinte pedi à IBM para ser transferido para o mais longe possível. Uma vez chegando ao meu novo destino, compreendi ter cometido um erro colossal: em Milão sentia-me duplamente só. Além de ter perdido o amor, tinha perdido também minhas referências, ou seja, a casa, a cidade, os familiares e os amigos.

 

* Dialeto napolitano: “Quero ir para a América que fica muito longe, quero ir onde nunca possa lhe encontrar. Quero esquecer do céu, de todas as canções e do mar, quero esquecer de Nápoles, quero esquecer de minha mãe, quero esquecer de você”. (tradução de Élia Ferreira Edel)

 

Luciano de Crescenzo in A dúvida.

 

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