eu cantarei de amor tão docemente…

Eu cantarei de amor tão docemente
Luís Vaz de Camões

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que o amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.

É querer estar preso por vontade…

Amor é fogo que arde sem se ver
Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

camões – sonetos – xlix…

já é tempo, já, que minha confiança
se desça duma falsa opinião;
mas Amor não se rege por razão,
não posso perder, logo, a esperança.

a vida sim, que uma áspera mudança
não deixa viver tanto um coração.
e eu só na morte tenho a salvação?
sim, mas quem a deseja não a alcança.

forçado é logo que eu espere e viva.
ah dura lei de Amor, que não consente
quietação num’alma que é cativa!

se hei-de viver, enfim, forçadamente,
para que quero a glória fugitiva
duma esperança vã que me atormente?

(Luis de Camões)

mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

ainda camões

mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

o tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

e, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.

(Luis Vaz de Camões)

a chaga que, Senhora, me fizestes…

luis vaz de camões dispensa qualquer apresentação. vamos direto a um de seus sonetos

a chaga que, Senhora, me fizestes,
não foi pera curar-se em um só dia;
porque crescendo vai com tal porfia
que bem descobre o intento que tivestes.

de causar tanta dor vos não doestes.
mas, a doer-vos, dor me não seria,
pois já com esperança me veria
do que vós que em mim visse não quisestes.

os olhos com que todo me roubastes
foram causa do mal que vou passando;
e vós estais fingindo o não causastes.

mas eu me vingarei. e sabeis quando?
quando vos vir queixar porque deixastes
ir-se a minha alma neles abrasando.

(Luis Vaz de Camões)