Ámame, compañera. No me abandones. Sígueme.

Para que tú me oigas
mis palabras
se adelgazan a veces
como las huellas de las gaviotas en las playas.

Collar, cascabel ebrio
para tus manos suaves como las uvas.

Y las miro lejanas mis palabras.
Más que mías son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras.

Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.

Ellas están huyendo de mi guarida oscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.

Antes que tú poblaron la soledad que ocupas,
y están acostumbradas más que tú a mi tristeza.

Ahora quiero que digan lo que quiero decirte
para que tú las oigas como quiero que me oigas.

El viento de la angustia aún las suele arrastrar.
Huracanes de sueños aún a veces las tumban.
Escuchas otras voces en mi voz dolorida.
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas.
Ámame, compañera. No me abandones. Sígueme.
Sígueme, compañera, en esa ola de angustia.

Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras.
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas.

Voy haciendo de todas un collar infinito
para tus blancas manos, suaves como las uvas.

Pablo Neruda

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amor à beira do rio…

Te amo
Pablo Nerudo

Amante, te amo e me amas e te amo,
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.

Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando
indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.

Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em
minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?

nada contava nem tinha nome…

Soneto XXV
Pablo Neruda

Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,

tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.

por los sueños tu corazón navega…

Es bueno, amor, sentirte cerca de mí en la noche,
invisible en tu sueño, seriamente nocturna,
mientras yo desenredo mis preocupaciones
como si fueran redes confundidas.

Ausente, por los sueños tu corazón navega,
pero tu cuerpo así abandonado respira
buscándome sin verme, completando mi sueño
como una planta que se duplica en la sombra.

Erguida, serás otra que vivirá mañana,
pero de las fronteras perdidas en la noche,
de este ser y no ser en que nos encontramos

algo queda acercándonos en la luz de la vida
como si el sello de la sombra señalara
con fuego sus secretas criaturas.

Pablo Neruda

Adeus, amor, te espero… E assim termina esta carta sem nenhuma tristeza…

Carta no caminho
Pablo Neruda in Os versos do Capitão

Adeus, porém comigo serás, sempre irás dentro
de uma gota de sangue que circule em minhas veias ou fora,
beijo que me abrasa o rosto ou cinturão de fogo na cintura.
Doce minha, recebe o grande amor que me saiu da vida e que em ti não achava
território como o explorador perdido nas ilhas do pão e do mel.
Eu te encontrei depois da tormenta, a chuva lavou o ar,
na água, teus doces pés brilharam como peixes.
Adorada, me vou a meus combates.
Arranharei a terra para te fazer uma cova e ali teu Capitão te esperará com
flores sobre o leito. Não penses mais, amada,
no tormento que passou entre nós dois como um raio de fósforo nos deixando talvez, a queimadura.
A paz chegou também porque regresso à luta em minha terra,
e como tenho o coração completo com a parte do sangue que me deste para sempre,
e como levo minhas mãos cheias do teu ser desnudo,
olha-me, pelo mar, que vou radiante, olha-me pela noite que navego,
e o mar e a noite, amor, serão os teus olhos.
Eu não saio de ti quando me afasto.
Agora vou te contar: vai ser tua a minha terra, vou conquistá-la,
não só para te dar, mas para dar a todos, para todo o meu povo.
Um dia o ladrão deixará a sua torre, e o invasor será expulso.
E todos os frutos da vida crescerão em minhas mãos acostumadas antes à pólvora.
E saberei acariciar as novas flores porque tu me ensinaste o que é ternura.
Doce minha, adorada, virás comigo lutar corpo a corpo,
porque em meu coração vivem teus beijos como bandeiras rubras,
e se caio, não só me recobrirá a terra, também o grande amor que me trouxeste,
que viveu circulando por meu sangue. Virás comigo,
e nessa hora te espero, nessa hora e em todas as horas,
em todas as horas te espero.

E quando venha a tristeza que odeio a golpear a tua porta,
diz a ela que te espero, e quando a solidão queira que mudes esse anel em que está meu nome escrito,
diz pra solidão falar comigo, que eu precisei partir porque sou um soldado,
e que ali onde eu estou, sob a chuva ou sob o fogo, amor meu, te espero.
Te espero no deserto mais duro e junto do limoeiro florescido,
em qualquer lugar onde esteja a vida, onde esteja nascendo a primavera, amor meu, te espero.

Quando digam: “Esse homem não te quer”, recorda que meus pés estão sós nessa noite e procuram os doces e pequenos pés que adoro. Amor, quando te digam que eu já te esqueci, e quando seja eu mesmo quem diga, e quando eu te disser, não me creias, quem e como poderiam te cortar do meu peito e quem receberia meu sangue quando em teu ser me fosse dessangrando? Porém tampouco posso esquecer o meu povo. Vou lutar em cada rua, atrás de cada pedra. O teu amor me ajuda: és uma flor fechada que me enche cada vez com seu aroma e que súbita se abre dentro de mim como uma grande estrela. Amor meu, é de noite. Essa água negra, o mundo dormindo, me rodeiam. Já está chegando a aurora, enquanto vem, te escrevo para dizer que te amo. Para dizer: “te amo”, cuida, limpa, levanta, defende nosso amor, alma minha. Aqui te deixo como se deixasse um punhado de terra com sementes. Do nosso amor nascerão vidas.
Em nosso amor beberão água. Talvez chegará um dia em que um homem e uma mulher, iguais a nós dois, tocarão este amor, que ainda terá força para queimar as mãos que o toquem. Quem fomos? O que importa? Tocarão este fogo e o fogo, doce minha, dirá teu simples nome e o meu, o nome que só tu soubeste porque só tu sobre a terra sabes quem sou, e porque ninguém me conheceu como uma, como só uma de tuas mãos, porque ninguém soube como, nem quando meu coração esteve ardendo: tão só teus olhos grandes pardos o souberam, tua vasta boca, tua pele, teus peitos, teu ventre, tuas entranhas e essa alma que eu despertei só para que ficasse cantando até o fim da vida. Amor, te espero.
Adeus, amor, te espero.
Amor, amor, te espero. E assim termina esta carta sem nenhuma tristeza: sobre a terra estão firmes os meus pés, minha mão escreve esta carta no caminho, e no meio da vida estarei sempre junto ao amigo, frente ao inimigo, com teu nome na boca e um beijo que jamais se separou da tua.

“Es la mañana llena de tempestad”

Poema IV
Pablo Neruda

Es la mañana llena de tempestad
en el corazón del verano.

Como pañuelos blancos de adiós viajan las nubes,
el viento las sacude con sus viajeras manos.

Innumerable corazón del viento
latiendo sobre nuestro silencio enamorado.

Zumbando entre los árboles, orquestal y divino,
como una lengua llena de guerras y de cantos.

Viento que lleva en rápido robo la hojarasca
y desvía las flechas latientes de los pájaros.

Viento que la derriba en ola sin espuma
y sustancia sin peso, y fuegos inclinados.

Se rompe y se sumerge su volumen de besos
combatido en la puerta del viento del verano.

“Más que mías son tuyas”

casa de Pablo Neruda/Isla Negra
poema declamado por Pablo Neruda

Para que tú me oigas
mis palabras
se adelgazan a veces
como las huellas de las gaviotas en las playas.

Collar, cascabel ebrio
para tus manos suaves como las uvas.

Y las miro lejanas mis palabras.
Más que mías son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras.

Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.

Ellas están huyendo de mi guarida oscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.

Antes que tú poblaron la soledad que ocupas,
y están acostumbradas más que tú a mi tristeza.

Ahora quiero que digan lo que quiero decirte
para que tú las oigas como quiero que me oigas.

El viento de la angustia aún las suele arrastrar.
Huracanes de sueños aún a veces las tumban.

Escuchas otras voces en mi voz dolorida.
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas.
Ámame, compañera. No me abandones. Sígueme.
Sígueme, compañera, en esa ola de angustia.

Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras.
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas.

Voy haciendo de todas un collar infinito
para tus blancas manos, suaves como las uvas.

Pablo Neruda

“escuta como o vento me chama…”

O Vento na Ilha
Pablo Neruda

O vento é um cavalo
Ouça como ele corre
Pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como recorre ao mundo
para me levar para longe.

Me esconde em teus braços
por somente esta noite,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para me levar para longe.

Com tua frente a minha frente,
com tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando na sombra,
entretanto eu, emergido
debaixo teus grandes olhos,
por somente esta noite
descansarei, amor meu.

silencio enamorado…

Es la mañana llena de tempestad
en el corazón del verano.

Como pañuelos blancos de adiós viajan las nubes,
el viento las sacude con sus viajeras manos.

Innumerable corazón del viento
latiendo sobre nuestro silencio enamorado.

Zumbando entre los árboles, orquestal y divino,
como una lengua llena de guerras y de cantos.

Viento que lleva en rápido robo la hojarasca
y desvía las flechas latientes de los pájaros.

Viento que la derriba en ola sin espuma
y sustancia sin peso, y fuegos inclinados.

Se rompe y se sumerge su volumen de besos
combatido en la puerta del viento del verano.