tuas, não minhas…

tuas, não minhas

tuas, não minhas, teço estas grinaldas,
que em minha fronte renovadas ponho.
para mim tece as tuas,
que as minhas eu não vejo.
se não pesar na vida melhor gozo
que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo,
surdos conciliemos
o insubsistente surdo.
coroemo-nos pois uns para os outros,
e brindemos uníssonos à sorte
que houver, até que chegue
a hora do barqueiro.

(Ricardo Reis)

Não tenhas nada nas mãos

Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que Átropos to não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 
Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio. 

Ricardo Reis

“Para deixar de ver”

Não Só Vinho
Ricardo Reis

Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não ‘spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.

“A resposta está além dos deuses”

Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias. A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos. Só nós somos sempre iguais a nós-próprios. Suave é viver só. Grande e nobre é sempre viver simplesmente. Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses. Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode dizer-te. A resposta está além dos deuses. Mas serenamente imita o olimpo no teu coração. Os deuses são deuses porque não se pensam.

Ricardo Reis