“São tantos de nós!”

Cogumelos
Sylvia Plath

Varando a noite, com
Brandura, brancura,
Silêncio absoluto,
Do artelho aos
narizes
Tomamos posse da
argila
E do ar adquirido.
Ninguém nos avista,
Nos detém, nos
agride;
Evadem-se os
grãozinhos.
Punhos suaves
insistem
Em brandir agulhas,
O recheio folhudo,
Até o calçamento.
Nossos martelos,
marretas,
Sem olhos e ouvidos,
De voz nem um fio
Alargam as gretas,
Ombro abrindo
fendas. Nós
Vivemos a pão e água,
Migalhas de sombra,
Com modos afáveis,
Inquirindo pouco ou
nada.
São tantos de nós!
São tantos de nós!
Somos estantes,
somos
Mesas, somos
humildes,
Somos comestíveis,
Aos trancos e
arranques
Apesar de nós
mesmos
Nossa espécie se
expande:
Pela manhã, havemos
De herdar o planeta.
E nosso pé porta
adentro.

“Tudo o que vem agora é o mar”

COLHER AMORAS
SYLVIA PLATH

Ninguém nas veredas e nada, nada além das amoras,
Amoras de ambos os lados, embora mais à direita
Uma aléia de amoras descendo em curva e um mar
Se alçando lá no fim. Amoras
Grandes como o meu polegar e a silenciar como olhos
De ébano nas sebes, gordas
De sumo azul-vermelho. O sumo esbanjam entre meus dedos.
Eu não pedira esta fraternidade de sangue: — elas na certa me amam.
E se acomodam em meu jarro, achatando-se os lados.

No alto, as gralhas negras, revoada cacofônica
— Pedaços de papel queimado girando num céu a pleno.
É delas a única voz protestando, protestando…
Acho que o mar não aparecera.
As campinas altas e verdes resplandecem como acesas por dentro.
Chego a um arbusto cheio de amoras tão maduras que o arbusto é de moscas
Pendentes, suas barrigas verde-azuladas e os vitrais das asas numa tela chinesa.
A festa de mel das amoras alvoroçou-as. Elas acreditam no céu.
Uma curva mais: amoras e arbustos terminam.

Tudo o que vem agora é o mar.
De entre dois morros uma súbita brisa se afunila em direção a mim
E me esbofeteia a face.
Esses montes são muito verdes e doces para quem provou sal.
Entre eles, sigo a trilha das ovelhas. Numa última curva
Alcanço a face norte dos montes, cor de laranja e rocha
E a face olha para nada, nada exceto um grande espaço
De luzes brancas metálicas; nada exceto um ruído de ferramentas sobre a prata,
Os golpes e golpes contra um metal intratável.

“I am not cruel, only truthful”

MIRROR
Sylvia Plath

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see, I swallow immediately.
Just as it is, unmisted by love or dislike
I am not cruel, only truthful —
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me.
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.