marília de dirceu…

tomas_a_gonzaga.jpgem 1744, na freguesia de miragaia, na cidade do porto, portugal, nasceu tomás antonio gonzaga. veio para o brasil em 1751, voltando para portugal em 1761 para estudar direito na universidade de coimbra. mudou-se novamente para o brasil em 1782, indo morar na vila rica, dos inconfidentes. apesar de pouco ter participado da conjuração de minas, foi preso por conspiração contra a corte portuguesa em 1789, juntamente com o alféres joaquim josé da silva xavier. em 1786, apaixonou-se por maria dorotéa, imortalizada na sua obra marília de dirceu. dirceu era o pseudônimo arcádico por ele adotado para publicar suas poesia. morreu em 1810, acometido de grave doença, na ilha de moçambique. aqui, a primeira lira da primeira parte dos famosos versos.

eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado;
de tosco trato, d’ expressões grosseiro,
dos frios gelos, e dos sóis queimado.
tenho próprio casal, e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto.
graças, Marília bela,
graças à minha Estrela!

eu vi o meu semblante numa fonte,
dos anos inda não está cortado:
os pastores, que habitam este monte,
com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste;
nem canto letra, que não seja minha,
graças, Marília bela,
graças à minha Estrela!

mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil Pastora,
depois que teu afeto me segura,
que queres do que tenho ser senhora.
é bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte, e prado;
porém, gentil Pastora, o teu agrado
vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
graças, Marília bela,
graças à minha Estrela!

os teus olhos espalham luz divina,
a quem a luz do Sol em vão se atreve:
papoula, ou rosa delicada, e fina,
te cobre as faces, que são cor de neve.
os teus cabelos são uns fios d’ouro;
teu lindo corpo bálsamos vapora.
ah! não, não fez o Céu, gentil Pastora,
para glória de Amor igual tesouro.
graças, Marília bela,
graças à minha Estrela!

leve-me a sementeira muito embora
o rio sobre os campos levantado:
acabe, acabe a peste matadora,
sem deixar uma rês, o nédio gado.
já destes bens, Marília, não preciso:
nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
para viver feliz, Marília, basta
que os olhos movas, e me dês um riso.
graças, Marília bela,
graças à minha Estrela!

irás a divertir-te na floresta,
sustentada, Marília, no meu braço;
ali descansarei a quente sesta,
dormindo um leve sono em teu regaço:
enquanto a luta jogam os Pastores,
e emparelhados correm nas campinas,
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores.
graças, Marília bela,
graças à minha Estrela!

depois de nos ferir a mão da morte,
ou seja neste monte, ou noutra serra,
nossos corpos terão, terão a sorte
de consumir os dois a mesma terra.
na campa, rodeada de ciprestes,
lerão estas palavras os Pastores:
“quem quiser ser feliz nos seus amores,
siga os exemplos, que nos deram estes.”
graças, Marília bela,
graças à minha Estrela!

(Tomás Antonio Gonzaga)

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