um sonho…

A Dream
William Blake
in Canções da Inocência e Canções da Experiência

Once a dream did weave a shade
O’er my angel-guarded bed,
That an Emmet lost its way
Where on grass methought I lay.

Troubled, ´wilder´d, and fo[r]lorn,
Dark, benighted, travel-worn,
Over many a tangle spray,
All heart-broke I heard her say:

“Oh my children! do they cry?
Do they hear their father sigh?
Now they look abroad to see:
Now return and weep for me.”

Pitying, I drop´d a tear:
But I saw a glow-worm near,
Who replied: “What wailing wight
Calls the watchman of the night?

I am set to light the ground,
While the beetle goes his round:
Follow now the beetle’s hum;
Little wanderer, hie thee home!”

Um sonho

Um sonho meu sombra teceu,
Quando um anjo guardava minha cama:
Nele, a Formiga se perdeu
Enquanto eu deitava na grama.

Perturbada, exaurida, assombrada,
Desolada e em aflição:
Entre a ramagem emaranhada
Sua dor partiu meu coração:

“Será que choram meus filhos?
Será que ouvem o pai em suspiros?
Ora eles lançam o olhar além,
Ora por mim choram também”.

Então chorei, penalizado;
Mas vi um vagalume ao lado:
“Pois quem se queixa? – respondeu –
Quem chama o guardião do breu?

Eu ilunimo o chão noturno
Quando o besouro faz seu turno:
Persegue o som do seu voar;
Andarilha, te apressa ao lar!”

“Para escrever as felizes canções”

Canções da Inocência
Willian Blake

INTRODUÇÃO

Tocando uma flauta no vale selvagem,
Tocando canções doces e alegres,
Vi uma criança aparecer nas nuvens,
E ela me disse sorrindo:

“Toque aquela do cordeiro”;
Então toquei alegremente;
“Toque de novo a canção, por favor” –
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.

“Largue a flauta, essa sua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção,
Enquanto ela chorou de prazer, ao ouvir.

“Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam” –
Então ela desapareceu”.
E eu peguei um junco oco,

E fiz uma caneta rústica,
E a mergulhei nas águas límpidas
Para escrever as felizes canções
Que toda criança aprecia tanto ouvir.

“Deus recompensa as preces”

O matrimônio do Céu e do Inferno:
No tempo de semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.
O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência.
Aquele que deseja e não age engendra a peste.
O verme perdoa o arado que o corta.
Imerge no rio aquele que a água ama.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê.
Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela.
A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.
À laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas.
As horas de insensatez, mede-as o relógio; as de sabedoria, porém, não há relógio que as meça.
Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço.
Toma número, peso & medida em ano de míngua.
Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas.
Um cadáver não revida agravos.
O ato mais alto é até outro elevar-te.
Se persistisse em sua tolice, o tolo sábio se tornaria.
A tolice é o manto da malandrice.
O manto do orgulho, a vergonha.
Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.
A vanglória do pavão é a glória de Deus.
O cabritismo do bode é a bondade de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
Excesso de pranto ri. Excesso de riso chora.
O rugir de leões, o uivar de lobos, o furor do mar em procela e a espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano.
A raposa culpa o ardil, não a si mesma.
Júbilo fecunda. Tristeza engendra.
Vista o homem a pele do leão, a mulher, o velo da ovelha.
O pássaro um ninho, a aranha uma teia, o homem amizade.
O tolo, egoísta e risonho, o tolo, sisudo e tristonho, serão ambos julgados sábios, para que sejam exemplo.
O que agora se prova outrora foi imaginário.
O rato, o camundongo, a raposa e o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo e o elefante espreitam os frutos.
A cisterna contém: a fonte transborda.
Uma só idéia impregna a imensidão.
Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.
Tudo em que se pode crer é imagem da verdade.
Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha.
A raposa provê a si mesma, mas Deus provê ao leão.
De manhã, pensa, Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.
Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.
Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Da água estagnada espera veneno.
Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que suficiente.
Ouve a crítica do tolo! É um direito régio!
Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra.
O fraco em coragem é forte em astúcia.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao cavalo como apanhar sua presa.
Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém.
Se outros não fossem tolos, seríamos nós.
A alma de doce deleite jamais será maculada.
Quando vês uma Águia, vês uma parcela do Gênio; ergue a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma pequena flor é labor de séculos.
Maldição tensiona: Benção relaxa.
O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem!
Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, Sublime; o coração, Paixão; os genitais, Beleza; mãos e pés, Proporção.
Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.
O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja.
Exuberância é Beleza.
Se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.
O Progresso constrói caminhos retos; mas caminhos tortuosos sem Progresso são caminhos de Gênio.
Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.
Onde ausente o homem, estéril a natureza.
A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.
Suficiente! ou Demasiado.

William Blake