“É nos sonhos que habita o improvável”

Mandala
André Pascoal

I

É nos sonhos que habita o improvável
O incógnito que se busca na vida
E nossos atos não possuem o condão das fadas
Nem o atributo do sagrado
São simplesmente falhos

Milagre é o cotidiano apartado de surpresas
Na humanidade, o esquecimento é uma parcela de virtude
É o exagero que os deuses permitiram
Aos eleitos para desfrutar da felicidade

Profanos somos todos nós:
Presos em atalhos de mentiras
Sem as quais nossa existência
Não sustentaria sequer uma verdade
Somos como sarcófagos
Matéria humana preservada para a posteridade
E nossos tesouros estão bem escondidos
Na placidez de almas embotadas
Talvez nunca sejam encontrados.

II

Sagrado são os desastres do arbítrio
Com os quais o humano se purifica
Dia a dia canonizado por uma amargura
Que lhe é legada pelos fracassos do espírito

Felicidade é uma teia malevolente de sentinelas da morte
Que nos espiam, sem que se expiem nossos pecados
Depreciam nosso pequeno conteúdo divino
Em meio a um decreto de incertezas
Ditadas pela força onisciente da interação de destinos

Em nossa missão não há misticismos
Estes são criados por uma vaidade obsessiva
Para explicar os caprichos do acaso
Ou simplesmente nossa imensa teimosia
Em não enxergar o quanto estamos sozinhos
Por mera incapacidade de altruísmos
Na sistemática liturgia dos dias.

III

Não, não são as estrelas que nos gizam
O destino do homem é conduzido por um itinerário de mágoas
E há sempre descobertas a serem empreendidas
Ainda que nossas bússolas estejam enferrujadas
Guardadas, por receio de navegar o desconhecido
Mesmo que nossos monstros só existam dentro de nós
E nós estejamos perdidos em um oceano de dúvidas
À deriva, com nossas suposições equivocadas.

Não há mais espaços para graças
A nossa sorte está lançada ao limite da selvageria
Nossa crença não comporta mais intervenções divinas
Nem expectativas de que estas aconteçam

Metafísica é uma presa consumida pelo tempo
Nossos ideais já não desafiam heresias
Estas se perderam em um vazio incompreensível
Criado pela tolerância dos sacrifícios da vontade

IV

Solidariedade é uma religião sem ídolos
Um comércio sujeito a piratarias
Não há templos a ela dedicados
Nem regras em seu escambo de chumbo
Seu sacerdócio é mero egoísmo
Sem espaços para quaisquer liberalidades
A menos que uma súplica de autopiedade
Seja o estribilho de sua prece contrita

A intolerância excomungou nossos dogmas
Esvaziando a consistência de credos passados
Nosso futuro foi reduzido a um círculo de aleivosias
Pela eficiência das existências falazes

A esperança é um estigma do onírico:
Sem fé ou rituais se desenvolve a quimera
Que da liberdade, assumirá as amarras…
Mas nossos rebanhos serão conduzidos
Até o limite do desperdício
Talvez nunca mais sejam reencontrados…
(Se juntos já estiveram algum dia!).

São Paulo, 23 de outubro de 2007.

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“A ti vocaciono o meu inesperado”

À capital do vale
André Pascoal

Matrona insípida, anódina
Seu contorno plúmbeo
A ti reverbero meu último escárnio
A ti guardo o despeito de uma paixão não correspondida
Da arrogância vazia dos seus filhos

Vejo-te como algo não tocado
Halo de emoções perdidas

A ti vocaciono o meu inesperado

Preso estive sob suas entranhas
Subjugado, rendido
Enxergando um mundo distorcido
Com seus olhos baços
De um glaucoma destrutivo

Comprazido estive com o veneno de sua língua
Com a ignorância que grassa de seu intestino
Crassa e grossa como um desespero
Tortura branca em desatino

Qual educação deste a tua prole!?
Digna de riso!!!!!!
A ilustração tacanha de seus ilustres pupilos
Sucumbe-se em interlocuções movediças
Escorregadias, repetitivas
Sob o pálio do monótono relatório
Das pequenas virtudes supostamente auferidas
Que só se destacam sob o ângulo
De uma enorme mediocridade pré-estabelecida

Jactam-se
De uma opulência que não lhes pertence
De uma estirpe que lhes fora negada
Já no projeto da semente embrionária
Orgulham-se
De uma evolução incipiente, precária
De um cosmopolitismo empedernido
Meramente decorativo

Apenas o desespero é a justificativa
Para o fundamento da idéia anestesiada, depressiva
Para a tolerância aguçada a tal mesmice
Só sua lembrança traz algo de tão intragável
Que de náusea, a alma quase regurgita

Sua rotina tão marcada
Pelo ritmo do cansaço
Pelo marasmo do ostracismo
Os seus braços esquálidos
Da poesia que secara
No córrego de seus vasos sanguíneos

Suas vértebras se dobraram
Ante o peso insustentável
Do seu tédio insuportável

Ruas que cruzam e entrecruzam
Qual desenho irrefragável
O novo que remete a uma idéia seca, ignóbil
Da coincidência das imagens importadas
O velho que sucumbe ao reacionário
Império das oligarquias

Ah lugarejo disforme, sem personalidade!
Capital do egoísmo!!!!
Orgulho de sua família!

Seus novos filhos repetirão qual calvário
O duro e sistemático ciclo sincopado
Referendado pela aspereza das estações marcadas
Que também renovarão suas sensações viciadas
Na síncope de suas veleidades ínfimas
Na atividade de suas necessidades comezinhas
De tudo o que lhe é valioso, mas mesquinho

Matrona velha, caduca inverossímil
Seu discurso já não faz mais sentido
Sua estrutura jaz toda corrompida
Que vá para o diabo!
O seu melhor amigo.

São Paulo, 22 de novembro de 2006.

“A ti vocaciono o meu inesperado”

À capital do vale
André Pascoal

Matrona insípida, anódina
Seu contorno plúmbeo
A ti reverbero o último escárnio
A ti guardo o despeito de uma paixão não correspondida
Da arrogância vazia dos seus filhos

Vejo-te como algo não tocado
Halo de emoções perdidas

A ti vocaciono o meu inesperado

Preso estive sob suas entranhas
Subjugado, rendido
Aos domínios visuais de sua retina
Que exibia o mundo sob uma ótica distorcida

Comprazido estive com o veneno de sua língua
Com a ignorância que grassa de seu intestino
Crassa e grossa como um desespero
Tortura branca em desatino

Qual educação deste a tua prole!?
Digna de riso!!!!!!
A ilustração tacanha de seus ilustres filhos
Sucumbe-se em interlocuções movediças
Escorregadias, repetitivas
Sob o pálio do monótono relatório
Das pequenas virtudes supostamente auferidas
Que só se destacam sob o ângulo
De uma enorme mediocridade pré-estabelecida

Jactam-se
De uma opulência que não lhes pertence
De uma estirpe que lhes fora negada
Já no projeto da semente embrionária
Orgulham-se
De uma evolução incipiente, precária
De um cosmopolitismo empedernido
Meramente decorativo

Apenas o desespero é a justificativa
Para o fundamento da alma anestesiada, depressiva
Para a tolerância aguçada a tal mesmice
Só sua lembrança traz algo de tão intragável
Que de náusea, o peito fica comprimido

Sua rotina tão marcada
Pelo ritmo do cansaço
Pelo marasmo do ostracismo
Os seus braços esquálidos
Da poesia que secara
No córrego de seus vasos sanguíneos

Suas vértebras se dobraram
Ante o peso insustentável
Do seu tédio anatematizado

Ruas que cruzam e entrecruzam
Qual desenho irrefragável
O novo que remete a uma idéia seca, ignóbil
De imagens importadas
O velho que sucumbe ao reacionário
Império das oligarquias

Ah lugarejo disforme, sem personalidade!
Capital do egoísmo!!!!
Orgulho de sua família!

Seus novos filhos repetirão qual calvário
O duro e sistemático ciclo sincopado
Referendado pela aspereza das estações marcadas
Que também repetirão suas sensações viciadas
A síncope de suas veleidades ínfimas
A atividade de suas necessidades comezinhas
De tudo o que lhe é valioso, mas mesquinho

Matrona velha, caduca inverossímil
Seu discurso já não faz mais sentido
Sua estrutura jaz toda corrompida
Sua saúde comprometida
Que vá para o diabo!
O seu melhor amigo.

São Paulo, 22 de novembro de 2006.

“Silêncio não cicatrizado”

Vingança

André Pascoal

Espasmo
Estarreço como uma larva
ao golpe certeiro
n’alma despreparada
Mágoa

Te espreito
Ódio inoculado, coágulo
Silêncio não cicatrizado

aceito
o jogo arrevesado
Estreito
dor anestesiada
vontade calculada

revido a bofetada,
com nada
agrado, aguardo
a fome ficar congelada
insônia, madrugada

convido-te às minhas teias
oculto minhas garras
atraio-te, afago-te
quero-te salvo, seguro
confiando no conforto
que te ofereço
de modo obscuro
inesperado

espero,
o tempo da hora adiada
quando a ofensa,
ja parece olvidada
armadilha montada
urdida sem urgência
de boca fechada

enfim,
o acerto de contas:
o gosto cru e amargo
no seu pálato
a fisgada, a dor, a pontada
na sua alma despreocupada
com o destino do outro
que a você era nada

a torpeza é sagrada!

São Jose dos Campos, 07 de junho de 2006.