“história de amor”

AMOR, VAMOS DISCUTIR A NOSSA RELAÇÃO?
Mário Prata

 

DISCUTIR: defender ou impugnar (assunto controvertido); questionar.
RELAÇÃO: comparação entre duas quantidades mensuráveis.

 (Aurélio)

 Há alguns anos eu e minha mulher (hoje ex-) fomos convidados pelo cantor e compositor João Bosco para assistirmos ao show dele no Teatro Municipal de Santo André. Como não sabíamos o caminho, João Bosco, que ia com a kombi da gravadora, ofereceu-se para uma carona. Pegamos ainda o genial jornalista policial Otávio Ribeiro (Pena Branca) e sua noiva no Hotel Cineasta no centro de São Paulo e lá fomos nós. Pena tinha acabado de escrever um livro chamado “Barra Pesada”.

 Quando chegamos, o teatro estava superlotado, não havendo mais espaço nem no chão. O produtor do João nos arrumou quatro cadeiras e lá ficamos nós num cantinho do palco. No centro, com foco de luz, apenas o João, o banquinho e o violão.

 Foi quando tudo se deu. Pena Branca e a noiva começaram uma discussão no palco. Lá no cantinho, para constrangimento meu e da Marta, enquanto João Bosco reclamava de “um torturante bandeide no calcanhar”. Da discussão partiram para um bate-boca de baixíssimo nível. Altos brados e baixos calões. Começaram a se xingar. O que aconteceu é que as mais de mil pessoas que lotavam o teatro começaram a desviar os olhos do centro do palco para o canto. Ali, naquele pequeno espaço cênico, estava acontecendo um outro espetáculo. Um casal DISCUTIA A RELAÇÃO, com o João Bosco fazendo um mero e distante fundo musical. Foi um sucesso, para desespero meu e da Marta, meros figurantes sem fala, porém boquiabertos.

 Não sei se o meu saudoso Pena Branca continuou com a moça depois daquele dia. Sim, porque quando se começa a DISCUTIR A RELAÇÃO é, quase sempre, porque não existe mais relação. Apenas discussão.

 DISCUTIR A RELAÇÃO é um ato recente. Antigamente, lá pelos anos sessenta, não se fazia isso. Quando o namorado ou a namorada chegava para o outro e dizia: “Sabe, eu estive pensando”… Pronto, o ouvinte já sabia que era o fim. Não havia mais o que discutir. Saía cada um para o seu lado dizendo que houve (que saudades) uma “incompatibilidade de gênios”. Isso resolvia tudo.

 E os nossos pais jamais discutiram a relação. Nem mesmo a relação sexual. Dava-se uma porrada e não se falava mais naquilo. As mulheres (infelizmente) sabiam do seu lugar ao lado do fogão, sem o fogo do amado.

 Mas o mundo girou, a lusitana rodou, vieram os psicanalistas e as feministas. Sim, foram eles que instigaram as mulheres a DISCUTIR A RELAÇÃO. Sim, são sempre as mulheres que começam (e acabam) as discussões e as relações. Os terapeutas, porque colocam na cabeça da gente que devemos dizer tudo que pensamos da pessoa amada para ela e não para o melhor amigo. E as feministas, bem, as feministas…

 Mas antes de surgir a expressão DISCUTIR A RELAÇÃO, tivemos outros nomes para a mesma desgastante peleja. “Vamos dar um tempo” não durou muito. Depois surgiu “nossa relação está desgastada”. Por que não “gastada”?

 Hoje, modismo ou não, não há casal que não DISCUTA A RELAÇÃO, pelo menos uma vez por semana, igualando ao número de atividades sexuais. DISCUTE-SE A RELAÇÃO nos mais variados lugares. Alguns sombrios, outros perigosos.

 O melhor lugar para se discutir a relação é na sala. Está-se próximo do uísque, da televisão que pode ser ligada a qualquer momento e mesmo da porta, para uma saída furtiva e quase sempre covarde. E é ótimo DISCUTIR A RELAÇÃO andando em círculos, com um copo não mão, um ouvido na fera e um olho no futebol. Sim, as mulheres adoram esta atividade aos domingos. Eu tenho um amigo que, quando quer sair sozinho com os amigos, diz: “Vou até lá em casa e dou um jeito de DISCUTIR A RELAÇÃO com a patroa, ela fica irritada e eu tenho um motivo para voltar aqui para o bar”.

 DISCUTIR A RELAÇÃO no quarto só tem duas saídas. Tudo terminar numa belíssima a lacrimejante cena de amor (ás vezes até com uns tapinhas carinhosos) ou a ida de um dos meliantes para o outro quarto. No quarto é impossível se tratar deste assunto impunemente. Principalmente se os dois atletas estiverem deitados. E nus. E se houver alguma faca por perto. Vide Robbit.

 No carro é um perigo. Deveria haver multa para esses casais que colocam em risco não apenas a vida deles, como também dos transeuntes e demais carros. DISCUTIR A RELAÇÃO dentro do carro sempre acaba em trombada na cara. E, quem está dirigindo, leva sempre a pior. Ou então propor um rodízio. Segunda não discutem casais com final 1 e 2. Terça, 3 e 4. E assim por diante.

 Agora, não há nada mais desagradável do que DISCUTIR A RELAÇÃO por telefone. É um horror. Geralmente é de madrugada. Longos silêncios… “Você está me ouvindo? Você está aí”? A gente não vê os olhos da outra pessoa, o sarcástico sorrizinho, a pequena lágrima rolando. Sem falar na conta do telefone.

 E nos restaurante, vocês já repararam? Sempre tem alguns casais que chegam calados, comem calados e calados saem. Um não dirige a palavra para o outro. Ledo engano. Eles estão, em silêncio, DISCUTINDO A RELAÇÃO. Acho uma covardia DISCUTIR A RELAÇÃO em silêncio. Eles não falam nada. Ela fica quebrando palitos e ele rasgando o guardanapo de papel. Imundando o restaurante.

 Já os mais modernos DISCUTEM A RELAÇÃO via Internet. Ele digita um disparate para ela na Vila Madalena, o texto vai para um satélite, dali vai para Columbus (Ohio, USA), volta ao satélite, baixa na central do Rio de Janeiro e, finalmente, entra no computador dela em Pinheiros, a uns quinhentos metros de distância. Depois é a vez dela fazer o mesmo. Coitado do satélite que tem que decifrar aqueles palavrões todos. Em português, é claro!

 Mas o pior não é DISCUTIR A RELAÇÃO. O pior é pagar fortunas a um profissional, sentar-se numa poltrona ou divã e ficar ali, durante cinqüenta minutos, por intermináveis semanas, meses a fio, anos seguidos, repetindo timtim por timtim como foi a nossa última conversa com o ser amado, fazendo um esforço danado para lembrar fala por fala, todos os diálogos. E o terapeuta lá, com aquele olho de peixe morto, caído, quase bocejando, ouvindo, pela oitava vez, naquela mesma tarde, a mesma nauseante história de amor.

 Sim, porque com ele a gente não DISCUTE A RELAÇÃO. Discutimos, no máximo, o preço. Da nossa dor.

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“Desculpe o mau jeito: tchau!”

Me devolva o Neruda (que você nem leu)
Mário Prata

Quando o Chico Buarque escreveu o verso acima, ainda não tinha o ‘que você nem leu’. A palavra Neruda – prêmio Nobel, chileno, de esquerda – era proibida no Brasil. Na sala da Censura Federal o nosso poeta negociou a proibição. E a música foi liberada quando ele acrescentou o ‘que você nem leu’, pois ficava parecendo que ninguém dava bola para o Neruda no Brasil. Como eram burros os censores da ditadura militar! E coloca burro nisso!!!

Mas a frase me veio à cabeça agora, porque eu gosto demais dela. Imagine a cena. No meio de uma separação, um dos cônjuges (me desculpe a palavra) me solta esta: me devolva o Neruda que você nem leu! Pense nisso.

Pois eu pensei exatamente nisso quando comecei a escrever esta crônica, que não tem nada a ver nem com o Chico, nem com o Neruda e, muito menos, com os militares.

É que eu estou aqui para dizer um tchau. Um tchau breve porque, se me aceitarem – você e o diretor da revista -, eu volto daqui a dois anos. Vou até ali escrever uma novela na Globo (o patrão vai continuar o mesmo) e depois eu volto. Esperando que você já tenha lido o Neruda.

Mas aí você vai dizer assim: pô, escrever duas crônicas por mês, fora a novela, o cara não consegue? O que é uma crônica? Uma página e meia. Portanto, três páginas por mês e o cara me vem com esse papo de Neruda? Preguiçoso, no mínimo.

Quando faço umas palestras por aí, sempre me perguntam o que é necessário para se tornar um escritor. E eu sempre respondo: talento e sorte. Não necessariamente nessa ordem. Sou um homem de sorte. Entre os 10 e 20 anos, recebia na minha casa O Cruzeiro, Manchete e o jornal Última Hora. E lá dentro eu lia (me invejem): Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Heitor Cony. E pensava, adolescentemente: quando eu crescer, vou ser cronista.

Bem ou mal, consegui meu espaço. E agora, ao pedir de volta o livro chileno, fico pensando em como eu me sentiria se, um dia, um desses aí acima escrevesse que iria dar um tempo. Eu matava o cara! Isso não se faz com o leitor (desculpe, minha amiga, não estou me colocando no mesmo nível deles,não)!

E deixo aqui uns versinhos do Neruda para as minhas leitoras de 30 e40 anos (e para todas):

”Escuchas otras voces em mi voz dolorida

Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas,

Amame, compañera. No me abandones. Sigueme,

Sigueme, compañera, em esa ola de angústia.

Pero se van tiñendo com tu amor mis palabras

Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas

Voy haciendo de todas um collar infinito

Para tus blancas manos, suaves como las uvas.”

Desculpe o mau jeito: tchau!

publicado em 07/08/2004, Revista Época

bulas

QUEM ESCREVE AS BULAS
Mario Prata

Quando me perguntam a profissão e eu digo que sou escritor, logo vem outra em cima: de que? De tudo, minha senhora. De tudo, menos de bula. Romance, cinema, teatro, televisão, poesia, ensaios, tudo-tudo, menos bula!

Uma vez, num barzinho uma gatinha perguntou-me o que eu escrevia e disse que escrevia bula. Ela não deu a menor atenção para mim. Se dissesse que era cronista do Estadão talvez tivesse mais sucesso. Por que o preconceito contra as geniais bulas? Quando é bula papal todo mundo leva a sério, mesmo que seja para dizer que não se pode fazer amor sem a intenção da procriação (que palavra mais animal!).

Não que eu não aprecie as bulas. Pelo contrário. Adoro lê-las. E com atenção. E, sempre, depois de ler uma, já começo a sentir todas as “reações adversas”.

Admiro, invejo esse colega que escreve bulas. Fico imaginando a cara dele, como deve ser a sua casa. Que papo tal escrivão deve levar com a mulher e com os vizinhos?

Tal remédio “é contra-indicado a pacientes sensíveis às benzodiazepinas e em pacientes portadores de miastenia gravis”. Dá vontade de telefonar para o doutor e perguntar como é que eu vou saber se sou sensível e portador?

Quanto ele ganha por bula? Será que ele leva os obrigatórios 10% de direitos autorais? Merecem, são gênios.

Jamais, numa peça de teatro, num roteiro de um filme ou mesmo numa simples crônica conseguiria a concisão seguinte: “É apresentado sob forma de uma solução isotônica (que lindo!) de cloreto de sódio, que não altera a fisiologia das células da mucosa nasal, em associação com cloreto de benzalcônio.” Sabe o que é? O velho e inocente Rinosoro.

Vejam o texto seguinte e sintam na narrativa como o autor é sádico: “Você poderá ter sonolência, fadiga transitória, sensação de inquietação, aumento de apetite, confusão acompanhada de desorientação e alucinações, estado de ansiedade, agitação, distúrbios do sono, mania, hipomania, agressividade, déficit de memória, bocejos, despersonalização, insônia, pesadelos, agravamento da depressão e concentração deficiente. Vertigens, delírios, tremores, distúrbios da fala, convulsões e ataxia.” Pronto, tenho de ir ao dicionário ver o que é ataxia: “Incapacidade de coordenação dos movimentos musculares voluntários que pode fazer parte do quadro clínico de numerosas doenças do sistema nervoso.” Já sentindo tudo descrito acima.

Quem mandou ler?

E quem tem úlcera pélvica não pode tomar remédio nenhum. Está condenado à morte? Toda bula odeia essa tal de úlcera pélvica. As demais úlceras entram como coadjuvantes nos textos dos autores buláticos (tem a palavra no Aurélio).

E as gestantes (é como os buláticos chamam a grávida)? Elas não podem tomar nenhum remédio. Os nobres coleguinhas protegem a gravidez.

E se você tem “intolerância conhecida aos derivados pirazolônicos”, te cuida, irmão. Deve dar em gente nascida em Pirassununga e região.

Para todo remédio uma bula diferente, um estilo próprio, um jeito de colocar a vírgula diferente.

Tudo isso para dizer que outro dia, na cama, com a parceira amada, pego uma camisinha na mesinha e abro. Sabe o que estava escrito lá dentro? “Parabéns! Você adquiriu o mais avançado e seguro preservativo do mercado brasileiro.” Era uma bula. Escrita por algum conhecedor, é claro, dentro da caixinha da camisinha. Claro que me entusiasmei e segui a leitura deixando a amada de lado. Falhei, é claro. Mas, em compensação, fiquei sabendo que “o agente espermicida nonoxinol (essa não tem no Aurélio) 9 (logo o 9?) é contra as DSTs”.

Depois dessa informação, aí sim, voltei para a alcova. Mas e a amada, onde estava?

E lembre-se sempre: todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças. E não tome remédio sem o conhecimento do seu médico. Pode ser perigoso para a sua saúde.

E pra cabeça!

Agora, falando sério. Admiro os escritores de bula. Assim como invejo os poetas. Talvez por nunca ter sido convidado (nem teria experiência) para escrever uma e nunca tenha conseguido escrever um poema. Sempre gostei de escrever as linhas até o final do parágrafo.

Para mim o poeta é um talentoso preguiçoso. Nunca chega ao final da linha. Já repararam?

Já o bulático, esse sim, é um esforçado poeta!

“Desculpe o assunto, mas eu precisava desabafar.”

É PRECISO SABER CHORAR
MARIO PRATA

“Quero chorar/não tenho lágrimas/que me rolem na face/pra me socorrerem (ou seria socorrer?).”

Verso do genial Antonio Maria, lá pelos 50, internacionalmente imortalizado pelo Nat King Cole.

 – Homem não chora!

 Sou de uma geração criada assim. Chorar é coisa de gente fraca, de mulher, me diziam os mestres e familiares.

Nunca chorei. Quer dizer, chorar choro e, às vezes, até demais da conta. Mas choro os outros, pelos outros. Não choro eu. Choro na morte dos amigos e até desconhecidos (Lennon e Lady Di, por exemplo). Mas não me choro. Não me recordo de chorar uma grande dor de corno nem de cotovelo. Não chorei quando perdi mulheres nem quando achei.

Choro em filmes, em livros e até em alguns comerciais. Choro ao ver a pobreza brasileira, chorei no diretas-já, choro com as crianças da rua, com os sem-terra, com as injustiças sociais, choro com a distribuição de renda dos brasileiros. Mas não choro eu. Não tenho lágrimas que me rolem na face para desabafar.

Outro dia, vi uma moça chorar. Publicamente. Uma moça linda. Chegou no restaurante com um amigo, estavam rindo felizes. Riam. Gente bonita. Restaurante vazio. Eles numa mesa e eu em outra. Adoro observar pessoas em bares e restaurantes e ficar imaginando o que fazem, o que são, os nomes, essas coisas. Idiossincrasias de escritor.

Percebi que ela não estava chorando ninguém. De repente, deu cinco minutos nela e ela começou a chorar. Convulsivamente, aos soluços. Guardanapo no rosto, amigo alisando o cabelo dela. Ele dizia alguma coisa engraçada, ela ria sem jeito e voltava a chorar. Ela estava desabafando alguma coisa lá dentro dela. Que bonito. Foi lindo ver aquela menina chorando. Deu vontade de ir lá e sapecar uns beijos na face molhada dela.

Mas homem não chora. Por que, meu Deus, que a gente não pode chorar?

Sempre quis chorar um grande amor perdido (e foram tantos), mas nada. Chegava a me esforçar, mas lá vinham os ferrenhos salesianos. Você só vai chorar realmente no dia do Juízo Final quando se encontrar com Deus. Talvez chore, pois Ele pode me mandar para o Purgatório, o Inferno ou, pior ainda, o Limbo, que deve ser um lugar cheio de criancinhas não batizadas a chorar o dia inteiro. Já pensou?

Choro até de pena, mas não choro eu. Choro de rir, também, que ninguém é de ferro.

O dia que eu chorar eu mesmo, vou dar uma festa e fazer todo mundo chorar até cair de exaustão e desidratação.

Será que o Serjão Motta chora ele ou só faz os outros chorarem? Será que quando o presidente Fernando Henriques comete alguma injustiça social ele chora nos braços da minha querida dona Ruth? Já pensaram, ele chorando andando em volta da cama lá no Palácio da Alvorada? Que cena.

O ministro Pelé chorou e disse love-love-love. Chorava ele e sua brilhante carreira.

E tem os que choram fácil. O Paulo Maluf, por exemplo. Deve chorar cada vez que vê uma pesquisa eleitoral ou uma galinha sem contracoxa. Chora em discursos, chora quando embarca, chora quando volta. Invejo ele, chora quando inaugura uma ponte com o nome da mãe. Que capacidade. Mas será que o choro malufista é mesmo sincero ou o homem é mesmo um bom ator? Já a mulher dele não chora. Derreteria toda a maquiagem.

Quando eu me imaginei escrevendo essa crônica, achei que ia chorar. Até aqui, nada. Não tem jeito. Homem não chora, gritava o meu pai enquanto me dava uns merecidos tabefes. E ai de mim se chorasse. Piorava, e muito, a situação.

Agora você que me leu até aqui e ainda não chorou (apenas riu dessas besteiras) irá me perguntar: mas esse cara está a fim de chorar, por quê? Se você não sabe a resposta é porque também passou a vida a chorar os outros. Você também nunca chorou você.

Não sei se deve ser bom chorar a gente mesmo, mas aquela menina lá no Martin Fierro me comoveu, me deu a certeza de que, mais dias menos dias, eu vou chorar eu. E me chorando vou entender muito mais o mundo, as pessoas e, nomeadamente, eu mesmo.

Agora, se você chorou esta crônica, você é uma pessoa feliz. Ou, então, está morrendo de dó aqui deste escriba machão.

Desculpe o assunto, mas eu precisava desabafar. Mesmo sem nenhuma lágrima a me rolar a face. Valeu.

“Chapeuzinho vermelho de raiva”

– Senta aqui mais perto, Chapeuzinho. Fica aqui mais pertinho da vovó, fica.

– Mas vovó, que olho vermelho… E grandão… Que que houve?

– Ah, minha netinha, estes olhos estão assim de tanto olhar para você. Aliás, está queimada, heim?

– Guarujá, vovó. Passei o fim de semana lá. A senhora não me leva a mal, não, mas a senhora está com um nariz tão grande, mas tão grande! Tá tão esquisito, vovó.

– Ora, Chapéu, é a poluição. Desde que começou a industrialização do bosque que é um Deus nos acuda. Fico o dia todo respirando este ar horrível. Chegue mais perto, minha netinha, chegue.

– Mas em compensação, antes eu levava mais de duas horas para vir de casa até aqui e agora, com a estrada asfaltada, em menos de quinze minutos chego aqui com a minha moto.

– Pois é, minha filha. E o que tem aí nesta cesta enorme?

– Puxa, já ia me esquecendo: a mamãe mandou umas coisas para a senhora. Olha aí: margarina, Helmmans, Danone de frutas e até uns pacotinhos de Knorr, mas é para a senhora comer um só por dia, viu? Lembra da indigestão do carnaval?

– Se lembro, se lembro…

– Vovó, sem querer ser chata.

– Ora, diga.

– As orelhas. A orelha da senhora está tão grande. E ainda por cima, peluda. Credo, vovó!

– Ah, mas a culpada é você. São estes discos malucos que você me deu. Onde já se viu fazer música deste tipo? Um horror! Você me desculpe porque foi você que me deu, mas estas guitarras, é guitarra que diz, não é? Pois é; estas guitarras são muito barulhentas. Não há ouvido que agüente, minha filha. Música é a do meu tempo. Aquilo sim, eu e seu finado avô, dançando valsas… Ah, esta juventude está perdida mesmo.

– Por falar em juventude o cabelo da senhora está um barato, hein? Todo desfiado, pra cima, encaracolado. Que qué isso?

– Também tenho que entrar na moda, não é, minha filha? Ou você queria que eu fosse domingo ao programa do Chacrinha de coque e com vestido preto com bolinhas brancas?

Chapeuzinho pula para trás:

– E esta boca imensa???!!!

A avó pula da cama e coloca as mãos na cintura, brava:

– Escuta aqui, queridinha: você veio aqui hoje para me criticar é?!

Mario Prata in MESERANI, Samir Curi. Redação Escolar : Criatividade.

“Os dois eram loucos. Internos.”

TINHA UM LOUCO NA VARANDA E UMA LOUCA ATRÁS DA IGREJA
Mário Prata

Não que ele estivesse ali esperando que ela passasse por ele e ele
num impulso
esticasse o braço e acenasse.
Pedisse.
Não que ela estivesse escondida atrás da igreja
fazendo um percurso mais longo
mas mais seguro.
Negasse.
Mas era um caminho que não a obrigava a passar na frente dele.
Não que ele fosse pensar que
caso ela passasse na frente da varanda dele
ela queria.
Muito embora ele não sabia o que ela queria.
Mas ela desconfiava do que ele queria.
E, cá entre nós
e lá, entre eles
ele também desconfiava do que ela queria.
Os dois eram loucos.
Internos.
Diziam para eles e para o outro que ali era um condomímio.
Mas eles sabiam
os dois
que ali não era um condomínio.
E sabiam
também
que ninguém fica à toa numa varanda
exposto.
E que ninguém fica à toa atrás da igreja
se escondendo.
Ficar atrás da igreja significa ir à procura da igreja?
Proteção?
Mas
além de uma varanda e uma igreja
qual era a loucura de cada um deles?
Isso era tudo que ele queria saber dela.
Por que ela estava atrás da igreja.
Isso era tudo que ela queria saber dele.
Porque estava na frente da varanda
se expondo tanto?
Ela câncer
ele pneumonia.
Ele aquário
ela gata ouvindo peixinhos sertanejos.
Treze livros
quarto treze.
No quarto
ela se perguntava o mesmo que ele:
o que é que eu estou fazendo aqui?
O que é que essa loucura quer comigo?
O que é que eu não quero com essa loucura?
Os loucos.
Nem a diferença de idade
nem a diferença de loucura
fazia com que um ignorasse o outro.
Um na varanda.
A outra atrás da igreja.
Onde é que esses dois doidos vão se encontrar?
Na varanda?
Atrás da igreja?
E se a igreja tivesse uma varanda?
E se a varanda tivesse um altar?
Os loucos têm medo.
Um do outro.
O do varanda finge que não tem.
Mas ele sabe que ele tem.
Ela também tem e sabe que ele tem.
Medo.
Adoro o jogo desses dois lindos doidos.

“De mão beijada”

Mário Prata in Mas será o Benedito?

a carne é fraca

SIGNIFICATIVO:

O homem não resiste ao sexo.

HISTÓRICO:

“Espiritus promptus est, caro autem infirma.” Foram as palavras de Jesus Cristo no Monte das Oliveiras, quando, ao encontrar adormecidos seus discípulos, logo imaginou que pudessem estar pensando ou sonhando com assuntos nada edificantes. Então lhes aconselha que velem e rezem para evitar a tentação. Está no Evangelho de São Mateus, XXVI (36-41). Portanto, não foi o escritor Júlio Diniz o primeiro a afirmar que a carne é fraca. Jesus já sabia muito bem disso. Que o diga Maria Madalena.

as aparências enganam

SIGNIFICATIVO:

Nem tudo aparenta o que realmente é.

HISTÓRICO:

Esta é fácil. Todo mundo sabe que a expressão surgiu naqueles parques de interior onde havia espelhos que deformavam nossa imagem. Num a gente ficava alto e fininho e no outro baixo e gordinho.

cair de quatro

SIGNIFICATIVO:

Ter uma surpresa muito grande.

HISTÓRICO:

Não tenho nenhuma fonte histórica para comprovar, mas parece que foi o que aconteceu com Napoleão Bonaparte, em Waterloo, em 1814. Foi uma grande surpresa. Daí outra expressão que é dita quando alguém se agacha:

– Foi assim que Napoleão perdeu a guerra.

Sei não.

chá de sumiço

SIGNIFICATIVO:

Pessoa que desaparece por determinado tempo de um lugar que costumava freqüentar.

HISTÓRICO:

Segundo Sebastián Lucrecio, da Universidade de Buenos Aires, era normal, na época da ditadura argentina, os militares darem um certo chá para certos terroristas. Depois do primeiro gole morriam asfixiados. E sumiam.

chutar o pau da barraca

SIGNIFICATIVO:

Criar uma grande confusão, inesperadamente.

HISTÓRICO:

Quem inventou esta história de “chutar o pau da barraca” foi o Conde D’Eu, genro de Dom Pedro II, quando assumiu a caça a Solano Lopes, depois de já terminada a Guerra do Paraguai. O conde gostava de acordar cedo para suas investidas e, quando o fazia e ainda havia soldados dormindo, ele saía “chutando os paus das barracas”, derrubando todas, para acordá-los.

cuspir no prato em que comeu

SIGNIFICATIVO:

Menosprezar algo que em outro momento lhe foi útil

HISTÓRICO:

Puro Shakespeare. Esta frase teria sido dita por Hamlet para Gertrudes (sua mãe), que havia tramado o assassinato do pai de Hamlet e se casado com o cunhado. Na última versão, Shakespeare cortou a fala, sem dar nenhuma explicação. Mas na primeira versão estava lá:

– Mãe, cospes no prato em que comestes, ingrata criatura!

dar trela

SIGNIFICATIVO:

Dar atenção, deixar o outro falar. Deixar o outro falar para se extrair alguma informação dele.

HISTÓRICO:

Esta é simples. Trela é aquela tira de couro ou metal com que se prendem os cães. Conforme você vai soltando a trela, o cachorro vai mais longe.

de mão beijada

SIGNIFICATIVO:

Dar de graça ou por um preço bem abaixo do mercado.

HISTÓRICO:

Deve ser coisa da Igreja católica. Você dava o dízimo e os padres davam a mão para a gente beijar. Ou seja, nosso dinheiro era dado “de mão beijada”.

deste mato não sai coelho

SIGNIFICATIVO:

Podemos desistir porque aqui não vai acontecer nada.

HISTÓRICO:

É notório o duelo — com espingardas — entre Olavo Bilac e Coelho Neto na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, em 1908. A frase, dita na presença de toda a imprensa por Bilac, ficou famosa: “deste mato não sai Coelho” vivo. Em tempo: ambos os tiros não acertaram. Anos depois fizeram as pazes.

mais vale um pássaro na mão do que dois voando

SIGNIFICATIVO:

É melhor ter a certeza de ter algo certo que sonhar com mais.

HISTÓRICO:

Frase muito comum na época em que os exércitos usavam os pombos-correios para levar mensagens de uma tropa para a outra. Porque ia um pássaro de cada vez. Quando mandavam dois, eles se distraíam entre si, iam namorar, tomar banho em lagos etc. Dois voando nunca dava certo. Principalmente se fossem macho e fêmea.

os cães ladram e a caravana passa

SIGNIFICATIVO:

Podem reclamar que eu vou em frente.

HISTÓRICO:

Caravana vem do árabe qairauãn. Tudo começou com as travessias dos desertos. “Cães” era como os árabes se referiam a seus inimigos. Mas, quando a “matilha” era muito grande, nem sempre a caravana passava.

procurar chifre em cabeça de cavalo

SIGNIFICATIVO

Tentar achar o impossível.

HISTÓRICO:

Cavalo, como você sabe, é o médium que recebe um guia. E, quando o guia chega nervoso, esbaforido, pode até avançar contra as pessoas, como se fosse um capeta, um chifrudo. Por isso, nas sessões espíritas, não é bom insultar o guia, “procurar chifres na cabeça do cavalo”, pois pode ser impossível.

uma luz no fim do túnel

SIGNIFICATIVO:

As coisas estão começando melhorar.

HISTÓRICO:

Thomas Alva Edison (1847‑1931), americano de Ohio, gostava de trabalhar no escuro. Afinal ele estava tentando inventar a lâmpada elétrica. Seu laboratório era um túnel debaixo de sua casa. Em 1878, aos 31 anos, conseguiu a luz. Levou todas as autoridades da cidade para ver o invento que iria mudar o mundo. Dizem que a frase foi do prefeito Garry Shirts:

‑ Vejo uma luz no fim do túnel. As coisas estão começando a melhorar.