“a surpresa da mão trêmula quando descobre um ninho”

Enseada
Miguel Reale

A suave alegria que toda tarde
se renova ao abrir a porta de meu lar

o perfume instintivo guia oculto ao longo de meus passos
o chilrar de pássaros implumes vibrando no riso das crianças
a surpresa da mão trêmula quando descobre um ninho,
mistério infiltrado nas frestas do quotidiano abrindo um leque
de esperanças e cuidados
como a do marujo que,
ao avistar a terra, vê-se preso de súbito
temor.

Ciúme do bem que de tanto se esperar já é bem amado
as chaves hesitantes na mão trêmula
enquanto as sombras se agitam como palmas oscilantes ao vento
que risca o céu de signos, nuvens e mensagens.
Ensimesmar-se é então falar sem verbo
guiando-se o nauta só pela estrela rumo à enseada plácida e noturna
na intimidade côncava do tempo.

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