Tulipas

PÃO E TULIPAS

Quando a gente percebe que não quer só comida
por FLÁVIA CESARINO COSTA*

“Pão e Tulipas” é uma comédia sobre os afetos pouco convencionais que às vezes invadem nossa tediosa existência urbana e podem produzir revoluções. O filme celebra os espíritos livres que vão se deixando, aos poucos, levar pelos imprevistos.
Rosalba (Licia Maglietta) é uma dona-de-casa que viaja em excursão acompanhada pelos dois filhos adolescentes e pelo marido, dono de uma vibrante empresa de acessórios de banheiro e de uma grosseria desanimadora. Numa parada, Rosalba demora no banheiro e é esquecida pelo grupo.
Ignorando as instruções do marido para que os espere, ela resolve voltar para casa de carona e aproveitar a tranquilidade em casa. No meio do caminho, resolve ir para Veneza, cidade que sempre quis conhecer. Chega à noite e gasta seu pouco dinheiro jantando num modesto restaurante e pernoitando numa pensão. No dia seguinte, siderada pelas atrações da cidade, perde o trem de volta para casa. Feliz, telefona à família e avisa que precisa de férias.
Rosalba hospeda-se na casa de Fernando, o garçom do restaurante onde jantou, um islandês culto e atencioso (Bruno Ganz), mas à beira do suicídio. Emprega-se na floricultura de um velho anarquista rabugento e fica amiga da vizinha massagista holística.
O enredo parece previsível, mas o ambiente onírico e pouco turístico da cidade estabelece um ritmo temporal inesperado. Pela primeira vez, Rosalba tem tempo para si. Tem sonhos engraçados, que misturam pedaços de sua vida em cenas incoerentes. Fernando insiste que ela retome uma velha paixão, o acordeão.
Os acontecimentos cotidianos têm uma magia que afasta o filme de um certo realismo, mas por outro lado dão mais espaço a uma dimensão libertária. Há algo de encantador e meio surrealista na dança dos sentimentos não ditos, mas que as imagens explicitam.
O marido, já com a pulga atrás da orelha, contrata um encanador fanático por histórias policiais para encontrar a mulher. Gordo e desajeitado, o detetive se livra da mãe dominadora e chega a Veneza para também perceber que a vida é bem mais divertida ali.
Os personagens antagônicos do marido gritalhão e do garçom sensível funcionam como ícones de duas vidas possíveis, mas são as mulheres que impulsionam as ações. A amante do marido se incomoda com a ausência de Rosalba, quando ele lhe implora que ela lave suas camisas, e chega a Veneza com um argumento invencível.
Soldini dirige com equilíbrio essa mistura do normal e do extraordinário para relatar o drama de Rosalba, dividida entre voltar para sua família ou assumir sua liberdade. Ele explica que o título do filme mistura duas referências. A primeira é que as tulipas vieram não da Holanda, mas do Oriente, onde significavam beleza, amor, desejo. A segunda é que, no início do século, um slogan dos operários têxteis dizia: “O corpo se nutre, mas a alma também. Dai-nos não apenas pão, mas também rosas”. Ou tulipas, diria Rosalba.

 

*Flávia Cesarino Costa é historiadora de cinema e autora de “O Primeiro Cinema” (Scritta, 95)
publicado no Jornal Folha de S.Paulo em 19 de janeiro de 2001.

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